A diferença entre duas formas de marketing: o grimpa de pinheiro e o fogão a lenha

1. Breve introdução

       Muitos que lerão esse texto talvez questionem de pronto: o que é grimpa de pinheiro? O que tem a ver essa tal de grimpa e o fogão a lenha com a questão do marketing de uma pessoa ou de uma organização? Calma, eu explicarei.

       Então, por grimpa de pinheiro alguns aqui no sul do Brasil definem por aquilo que a grande maioria chama de sapé. Na verdade são os galhos secos da araucária que é uma árvore típica aqui do sul do Brasil. As fotos que incluímos neste artigo ilustram melhor o que afirmei.

       Antes propriamente de começar a lhe escrever acerca da intencionalidade deste meu artigo, preciso lhe dizer algo.

       Nós, da Filosofia Clínica (FC), dizemos que nos atores sociais há de pronto, duas dimensões: a primeira corresponde àquilo que existe enquanto ideia, ou seja, são as representações que temos das coisas. A isso, Lúcio Packter, sistematizador da FC, denominou de Estrutura de Pensamento (EP); evidentemente que é da condição humana encontrarmos formas de exteriorizar o que está em nossa EP. Pois bem, Packter nos diz que, ao fazermos isso, nós lançamos mão de muitos submodos. Na verdade, eles são as formas de materializarmos aquilo que existe enquanto elemento abstrato em nossa malha intelectiva, sendo, portanto, esta a segunda dimensão.

       Um desses submodos é o vice-conceito. O vigésimo segundo de uma tábua de trinta e dois que ele nominou. Particularmente gosto muito desse submodo. Eu o utilizo em diferentes momentos da minha vida, principalmente quando minha intenção é comunicar uma ideia a alguém. O que esse submodo significa? Ele está presente nas pessoas que se valem da analogia para comunicar algo. Podemos dizer que é um raciocínio por semelhança. É uma linguagem figurada. Nossas metáforas da língua portuguesa. Nos evangelhos há muitos vice-conceitos. Por exemplo, a parábola do semeador.

       Penso ser importante também dizer que a FC é rica em neologismo. Antes que ela fosse apresentada à comunidade acadêmica em 1995, Lúcio Packter construiu aproximadamente 70 conceitos novos. Todos eles com uma semântica própria. Sendo essa uma das razões que expressa à genialidade desse filósofo brasileiro e também a grande aceitação que a mesma vem tendo entre diversos profissionais, das mais diferentes áreas do saber.

       Feito tal esclarecimento, creio que ficará mais fácil a compreensão do que pretendo lhe apresentar a partir daqui.

 2. A diferença entre as duas formas de publicidade expressa no título deste artigo

        O que entendo por marketing grimpa de pinheiro? Quando uma grimpa está bem seca, ao atearmos um fósforo na mesma que vemos? A chama é rápida e intensa. Contudo, dura pouco. Mantém o color no local, não por muito tempo. Assim é o que ocorre quando uma empresa decide investir somente nesse tipo de publicidade. Ela investe em outdoors, em rádio, em TV, etc. Faz isso por uns 15 dias. Muitas pessoas tomam conhecimento do que essa empresa oferece, mas se não houver continuidade, trinta dias depois dificilmente alguém lembrará tais comerciais.

    Da mesma forma que o custo é alto para manter um fogo a base de grimpa de pinheiro, assim ocorre com esse tipo de publicidade. Atenção! Eu não estou dizendo que não vale a pena investir nesse tipo de mídia, apenas estou registrando que só vale a pena se houver quantidade com periodicidade e a mesma necessitará do marketing fogão a lenha se quiser obter êxito. Do contrário, dificilmente sobreviverá.

       Passemos agora a ver o que defini por marketing fogão a lenha e depois farei as imbricações entre essas duas formas de publicidade.

       Creio que você, que leu este artigo até aqui, já esteja imaginando o que pretendo dizer quando lancei mão desse submodo denominado vice conceito, para mostrar que há no mínimo duas formas claras de uma marca chegar até o público alvo.

    Um fogão a lenha demora certo tempo para esquentar. Principalmente quando começamos o fogo com pequenos gravetos, depois encostamos uma lenha mais grossa, etc. Porém depois de aquecido ele demora a esfriar. Isso quando forem respeitadas as condições naturais de seu funcionamento.

       Outra coisa importante: quando um fogão está aquecido, ao colocar um pequeno pedaço de lenha, sendo boa, ele se manterá aquecido mais um bom tempo. Foi justamente pensando nessa lógica que compreendi que o marketing fogão de lenha é aquele feito a partir do chamado “boca-a-boca”. Onde as pessoas, de forma espontânea, acabam falando bem de  uma pessoa ou de uma arganização.

Quando uma empresa ou um determinado ator social lança mão desse recurso de publicidade, deve ter clareza que os resultados não são imediatos. Levará tempo até “aquecer o fogão”, mas depois de aquecido ela colherá bons resultados.

       Você que me lê já pensou que também é uma marca? Da mesma forma como uma empresa necessita se afirmar no mercado para sobreviver, assim somos nós. Afinal de contas, o que é nosso currículo? A mim parece evidente que é uma espécie de carta de apresentação. Nele estão registrados os pontos nucleares acerca dos serviços que somos capazes de prestar a uma determinada organização.

       Apenas reforçando: quando nos valemos desse recurso do marketing fogão a lenha para construirmos nossa marca, necessitamos estar cônscios que não é de uma hora para outra que ela se firmará no mercado. Entretanto, com o tempo ela se firmará e os resultados serão promissores.

       Aqui cabe uma questão: o que devemos fazer para que as condições do marketing fogão a lenha existam? Primeiro, penso que é necessário que esteja claro qual é nosso compromisso ético-político frente ao mundo. Se for uma empresa, a sua missão necessita estar materializada nos atores sociais que a compõe. Quando for uma pessoa, é necessário que exista uma obra. O bom discurso, por si só, não aquecerá o fogão. Muito menos os títulos que alguém possa ter lhe garantirão o emprego. Eles são apenas indicativos de qualificação. Só teremos certeza que alguém tem mesmo “queijo na mala” depois de comermos o sal com essa pessoa.

    Tanto a empresa quanto a pessoa hoje necessitam evidenciar que estão contribuindo para o desenvolvimento sustentável. Aquelas organizações que tem como fogo apenas os resultados financeiros, dificilmente conseguirão aquecer o fogão ou mantê-lo por muito tempo com uma boa chama.

       Para a organização que não tem muitos recursos financeiros, essa forma de publicidade é fundamental. É ela que dará perenidade à mesma como afirmei em dois dos parágrafos anteriores. Ela se traduz no bom atendimento, no comprometimento das pessoas que nela trabalham com a missão da organização, no clima organizacional saudável entre outras coisas.

 3. As imbricações entre essas duas formas de Marketing

 Creio que se pudéssemos dialogar pessoalmente, haveria consenso entre nós de que é bom que exista uma relação dialética entre essas duas formas de publicidade. Isso é possível para uma empresa que já se consolidou no mercado. Para alguém que está começando é bom que vá devagar. Se investir muito no grimpa de pinheiro, talvez lhe falte depois fluxo de caixa.

Aquele que está começando como empreendedor, se tiver uma marca pessoal já fortalecida terá mais chance de prosperar. Estou me referindo à existência de uma boa rede de contatos. Notoriamente que conhecer bem com o que se vai trabalhar é também importante. Isso lhe dará mais segurança.

Muitos são os aspectos que poderiam ser aqui aprofundados. Esses eu deixo para suas reflexões. A intencionalidade aqui foi criar uma forma didática para evidenciar que aquele que não tem muitos recursos financeiros necessita ter paciência e investir no marketing fogão a lenha.

Gostaria de lembrar que algo semelhante ocorre com aquele que decide estudar. Fazer isso é como plantar araucária e não soja. Os resultados demoram a aparecer, mas quando chegam, a colheita é contínua, embora sazonal. Algo semelhante ocorre com um fogão à lenha quando  funciona bem.

Caso você queira fazer um comentário acerca do que escrevi, por bondade, escreva-me diretamente através do meu endereço eletrônico que é: ivo@itecne.com.br

 

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O que os pais e demais educadores precisam saber se o desejo é manter as crianças e adolescentes longe dos vícios

Por Ivo José Triches[1]

Talvez ao terminar de ler esse artigo você fará a seguinte indagação: mas é só isso que eu preciso evitar? A resposta seria se estivesse na sua presença: notoriamente que não. Há outras coisas importantes e que são necessárias quando o assunto é educação dos filhos, mas essas penso que você poderá acrescentar.

Contudo, de uma coisa você pode estar certo, qual seja, de que os pais e demais educadores que estão infringindo essas regras que você encontrará abaixo, terão grandes chances de verem as crianças e adolescentes abreviando seus dias.

Antes propriamente de inserir neste artigo o núcleo central do mesmo, que é essa mensagem, vou dizer como foi que os onze tópicos da mesma foram produzidos.

A cidade de Houston é a mais populosa do Estado do Texas nos EUA. Nela o problema da delinquência existe até hoje. Os soldados começaram a investigar quais eram as causas, ou seja, por que muitas crianças e adolescentes acabavam se envolvendo com as drogas e por conta disso praticavam delitos.

Chegaram a dez causas. Hoje essa pesquisa serve de norte para muitos pais, professores, diretores de escola, pedagogos, religiosos e demais educadores que estão comprometidos em manter as crianças longe da delinquência.

Pois bem, incluí apenas um tópico. O décimo primeiro. Isso eu aprendi com meus pais. Eles sempre nos alertavam de que não podíamos cometer esse erro.

A seguir você encontrará essas onze razões. Espécie de “mandamentos” que não devemos seguir em hipótese nenhuma para não termos aborrecimentos com nossos filhos mais tarde.

Depois dessa mensagem que você lerá, vou escrever apenas um pequeno comentário de sua aplicabilidade em nosso fazer pedagógico aqui em nossa escola na cidade Cascavel no Paraná. Ao fazer isso nossa intencionalidade é clara. Qual? De que você também possa fazer uso dessa experiência, se considerar que ela poderá lhe ajudar nas suas atividades como educador ou educadora. Aqui está:

  1. Comece na infância a dar ao seu filho tudo o que ele quiser. Assim, quando crescer, acreditará que o mundo tem obrigação de lhe dar tudo o que deseja. Para isso, satisfaça todos os seus desejos de comida, bebida e conforto. Negar pode acarretar frustrações prejudiciais;

  2. Quando ele disser palavrões, ache graça. Isso o fará considerar-se interessante;

  3. Nunca lhe dê qualquer orientação espiritual. Espere até que ele chegue aos 21 anos, e “decida por si mesmo”;

  4. Apanhe tudo o que ele deixar jogado: livros, sapatos, roupas. Faça tudo para ele, para que aprenda a jogar sobre os outros, toda a responsabilidade;

  5. Discuta com frequência na presença dele. Assim não ficará muito chocado quando o lar se desfizer mais tarde;

  6. Dê-lhe todo o dinheiro que ele quiser. Nunca o deixe ganhar seu próprio dinheiro. Por que ele terá que passar pelas mesmas dificuldades que você passou?

  7. Tome o partido dele contra vizinhos, professores, amigos. (Afinal todos têm má vontade para com seu filhinho).

  8. Quando ele se meter em alguma encrenca séria, dê essa desculpa: “Nunca consegui dominá-lo”;

  9. Em ocasiões onde ele estiver reunido com amiguinhos ou com seus irmãos use e abuse das comparações que incitem disputa. Compare seu caráter, sua capacidade intelectual, e seus dotes estéticos; diga em alto e bom tom para que todos possam ouvir, ele inclusive, coisas do tipo: – “Meu filho é mais inteligente que os outros, é mais belo, é mais esperto, é um gênio”!;

  10. Se tiverem algum vício, demonstrem-no em sua presença todos os dias. Assim ele vai achar tudo isto natural, e com certeza, mais tarde, vai ouvir suas repreensões sobre os males que estas imperfeições podem trazer;

  11. Deem orientações diferentes para seu filho. O pai diz uma coisa e a mãe outra. Isso fará com que ele opte pelo mais cômodo. Perceberá que tudo o quer conseguirá com aquele que fizer suas vontades.

  12. Feito isso, prepare-se para uma vida de desgostos. É
    sem dúvida seu mais que merecido destino!
    Estamos trabalhando aqui em nossa escola com essa mensagem da seguinte forma:

- por indicação dos professores e da equipe de orientação educacional estamos identificando quais são os educandos que apresentam dificuldade no processo ensino-aprendizagem, cuja causa é a questão disciplinar, preguiça, etc;

- depois de feito isso, chamamos o pai e a mãe ou aqueles que são responsáveis pela educação da criança no lar;

- ao chegarem à escola, então nós primeiro mostramos as razões pelas quais eles necessitaram vir até nós;

- em seguida dizemos que leremos uma mensagem – essa acima – tópico a tópico com calma e vamos dialogando sobre os mesmos. Que é para serem verdadeiros; Que isso é uma espécie de “filtro”; Que é para ver se estão infringindo uma dessas regras; Que é fundamental a humildade e que digam onde porventura estão errando, para que possamos afinar a viola.

Resultado: todas as crianças que vem apresentando desinteresse pelos estudos ou se envolvendo em algum vício é por que os pais estão cometendo um ou mais erros que essa mensagem aponta.

Essa tarefa de ler essa mensagem com os pais e refletir sobre a mesma coube mim. Impressionante são os resultados. O que posso testemunhar é que quanto mais regras dessas os pais apontam que estão infringindo, mais difícil está a situação do seu filho ou filha no tocante ao processo de ensino-aprendizagem.

Quando há o comprometimento de todos os atores envolvidos, quando todos procuram falar a mesma linguagem com seu filho ou filha, os resultados positivos começam a surgir.

Sugestão: que essa mensagem seja lida e comentada em casa pelos pais e que nas escolas sejam feitas palestras para os mesmos acerca dessa temática.

É fundamental que seja dito que é muito raro ver um pai ou mãe que deseje que seu filho ou filha se perca com alguma forma de vício. Seja esse vício o computador, o álcool, ou ainda, outra forma de droga. Contudo, às vezes nós erramos sem ter a intenção. Eu mesmo, como pai, estava errando no item 04 e 05 dessa mensagem. Ao tomar ciência de tais erros, procurei me corrigir.

   Faço votos que esse documento sirva de norte ao seu fazer pedagógico e que os resultados sejam sempre os melhores.

     Caso você queira fazer um comentário acerca do que escrevi, por bondade, escreva-me diretamente através do meu endereço eletrônico que é: ivo@itecne.com.br


[1] Ivo José Triches é formado em Filosofia. Possui três Especializações e Mestrado. Atualmente é Diretor do Colégio e da Faculdade Itecne de Cascavel. É também o Professor titular do Centro de Filosofia Clínica em Cascavel no Paraná.

 

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ISSO PODE SER UM BÁLSAMO À SUA ALMA: multum, non multa, ou seja, muito, não muitas coisas.

Por Jeferson Ricardo S. Flores[1] e Ivo José Triches[2]

O filósofo e político romano Plínio (Caius Plínius Caecillus Segundos), foi o autor deste provérbio que inspirou este nosso escrito. Tal provérbio foi extraído do Dicionário de máximas e expressões em latim, cuja autora é Christa Pöppelmann. No Brasil foi publicado pela Editora Escala.

Na ciência da Administração muito já se escreveu e se escreve até hoje sobre a importância do foco. Há inclusive livros com esse título. Contudo, lermos isso diretamente na língua da sabedoria – o Latim – é mesmo um bálsamo à nossa alma.

Isso, de certo modo, evidencia que escrever ou falar sobre essa temática, não é nenhuma invenção moderna. Que os antigos já haviam percebido o quanto é relevante nós não querermos “abraçar o mundo”. Que é melhor concentrarmos nossas energias em uma ou duas coisas.

Uma das razões que enfraqueceu o império napoleônico, foi o fato dele ter iniciado várias frentes de batalha ao mesmo tempo. Há outros exemplos na história que evidenciam isso.

Por que de modo geral quando assumimos muitas coisas ao mesmo tempo, não fazemos nada direito? Porque isso dispersa nossa energia, nossa concentração, nossa integridade. Ficamos energeticamente volúveis, vulneráveis, instáveis. Portanto, sujeitos às interferências, às falhas, aos equívocos. Ajustar bem o seu foco, mesmo que tenha mais de uma atividade para fazer é primordial. Isso te dá força concentrada, potência, fluxo energético.

Se você partir do pressuposto de que a principal de todas as escolhas é escolher-se, é fundamental que seu foco esteja nessa direção. Escolher uma profissão porque lhe fará ganhar mais dinheiro ou lhe proporcionará mais status, fará com que seja muito difícil você manter o foco nisso.  Isso porque ao longo dos dias compreenderá que o fardo é muito pesado. O custo será maior que o benefício à sua alma.

Para que compreenda melhor o que estamos querendo dizer, lançaremos mão de uma analogia. Escolher-se é fazer aquilo que faz bem à sua alma. À medida que você começa a se especializar nisso, perceberá que é semelhante àquele que cava um poço. Quanto mais ele cavar, mais conhecerá desse poço, mas isso não significa que não possa também conhecer o que há ao redor desse poço, do lado de fora, etc. Em outras palavras, não dá para querer fazer mestrado, lecionar, coordenar um curso de graduação, ser presidente de partido político, ter filhos para cuidar e estar terminando uma especialização ao mesmo tempo. Notoriamente que isso não é uma ciência exata ou radical, 08 ou 80, mas saber com clareza o que se quer, como se quer chegar lá, do que devemos abrir mão é muito importante.

Para nós, tão difícil quanto escolher-se é sustentar a escolha, ou seja, é fazer as renúncias necessárias para que você realize o que quer, consiga o que quer conforme o foco inicialmente escolhido. A opção que se apresenta fora do foco é como se fosse um teste, uma “tentação” para verificar até que ponto você está ou não comprometido com aquilo que deseja.

O que acontece, numa explicação do ponto de vista energético, é que o foco é uma concentração de energia em direção a determinada situação desejada e para isso, ganhamos impulso, potência e velocidade rumo ao que queremos.

1. Diante da escolha principal há dúvidas

Cremos que para você também seja assim: às vezes nos vemos em situações conflitantes, que geram crises ou dificuldades de escolha e posicionamento. Por diversas vezes entendemos que quando nos posicionamos, situações e oportunidades diferentes aparecem, o que faz com que fiquemos confusos. Como se fossem sinais de caminhos alternativos e nós, por imaturidade e pouca clareza destes processos, acreditamos que seja possível seguir os dois ou vários caminhos em paralelo sem maiores consequências. É a falta de uma consistência e clareza do foco principal em nossa vida que faz com que titubeemos e acabemos cedendo ao aceitar outras opções e escolhas que não são as nossas ou que estejam alinhadas ao nosso foco.

Entendemos que é fundamental você perceber que há estradas que às vezes você precisará percorrer por tempos mais ou menos longos em paralelo, que serão compartilhadas com outros companheiros de jornada, mas que, em algum momento talvez você venha a se desligar desse comboio para pegar outra estrada, um atalho, enfim, um trevo que te leve a outro lugar existencialmente melhor.

Use sua energia para construir, nem que seja para se reconstruir, nem que seja para planejar, afinal, construção pressupõe também planejamento e projetos.  Veja o exemplo do leão: ele é manso, porque guarda todas as suas energias para o foco dele, aquilo que ele sabe fazer melhor do que ninguém: dar o bote no momento certo, rugir de forma estrondosamente potente, enfim, ser o rei da selva. Em quê você quer concentrar toda a sua energia?

2. Considerações finais

O fato é que não dá para “assobiar e chupar cana”. Estamos convencidos que é melhor nos especializarmos em uma determinada profissão, por exemplo, que nos faça bem e termos a coragem de dizermos não a tudo aquilo que serve como tentação de uma vida fácil.

Saber dizer não é fundamental para aquele que deseja ter foco na vida. Se ao escolhermos fazer algo que seja bom para nós e bom para a humanidade, então nossas alegrias não serão egoísticas e passageiras. Ao servirmos a humanidade, qualquer que seja a forma e o tamanho da contribuição, nos eternizaremos no coração daqueles para os quais contribuímos para que pudessem escolher-se também.

Nosso desejo é que esse provérbio seja um encarte para sua alma. E o que isso significa? Aprendemos recentemente com Lúcio Packter – propositor e principal sistematizador da Filosofia Clínica, que isso é semelhante à casca de um ovo, ou seja, fazer um encarte na alma é envolvê-la com algo que sirva para evitar que ela se disperse com coisas que nos causarão dores existenciais. Por isso é bom ao menos uma vez por mês dizer a si mesmo: multum, non multa. Isso tem o efeito de um encarte e ajuda a manter-se no foco.

Caso você queira fazer um comentário acerca do que escrevi, por bondade, escreva-me diretamente através do meu endereço eletrônico que é:ivo@itecne.com.br

[1] Jeferson Ricardo S. Flores é formado em Administração com MBA em Gestão Empresarial e Especialização em Inteligência Multifocal; atualmente cursa Filosofia Clínica no Centro de Cascavel Paraná.

[2] Ivo José Triches é formado em Filosofia. Possui três Especializações e Mestrado. Atualmente é Diretor do colégio e da Faculdade Itecne de Cascavel. É também o Professor titular do Centro de Filosofia Clínica em Cascavel no Paraná.

 

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ALGUMAS IDÉIAS QUE PODEM FAZER A DIFERENÇA NA ESCOLA ONDE VOCÊ TRABALHA

Escrito por Ivo José Triches[1]

Você encontrará neste artigo uma reflexão sobre o tema proposto e a partilha do que está ficando de bom depois de vinte e cinco anos de experiência como Educador.

No fundo, minha intenção é socializar algo de muito bom que está acontecendo conosco em nossa escola, aqui em Cascavel, no Paraná. Se isso for considerado significativo por ti, faço votos que tais ideias sejam incorporadas no seu fazer pedagógico.

Antes propriamente de adentrar ao tema proposto é importante que se diga que não tenho a pretensão de dizer que são as melhores experiências ou ideias. Pelo contrário. É com espírito alterdidata que faço isso, ou seja, desejo guardar o que aprendi no coração dos meus amigos e amigas e nos demais educadores que lerão tal escrito.

1. Qual é sua Causa? Sua escola tem uma?

Estou seguro que a primeira coisa que precisa ficar clara é o entendimento dos atores sociais acerca de que qual é a causa da escola em que trabalham. Em outras palavras: qual é a missão? Todo tem claro qual é? Será que direção, professores, equipe pedagógica e os demais assimilaram essa causa?

Qual é a sua razão de ser como educador ou educadora? Isso fica evidente nas obras de cada um. Espinosa disse no capítulo V de sua obra denominada Tratado Teológico-Político, que só podemos conhecer alguém pelas suas obras. Nestes anos todos trabalhando com educação pude perceber que há, basicamente, dois grupos: existem aqueles que vivem para e da educação e outros que vivem somente da educação. Isso tanto nas escolas públicas, como naquelas cujo ensino é privado.

Portanto, se está claro para os atores sociais qual é a causa central da escola em que você trabalha o caminho a ser percorrido será mais leve. Neste sentido, Santo Agostinho disse numa certa feita: “Se houver um caminho entre aquele que marcha e o objetivo para o qual tende, há esperança de atingi-lo; se faltar o caminho, de que serve o objetivo?”

Para que a missão seja assimilada por todos, uma sugestão é que sejam confeccionados vários banners sobre a mesma e que também sejam definidos os principais valores que são preconizados pela escola.

Agora passemos ao passo seguinte. Nele enfatizarei a importância do APP – Assessor Pedagógico de Pátio.

2. A razão de ser do Assessor Pedagógico de Pátio – APP

Esse neologismo foi criado por mim com clara intenção de substituir o velho conceito que se tem nas escolas, qual seja, a figura do inspetor de alunos.

Esse por sua vez, ao menos nas escolas em que trabalhei, faz até hoje o papel de disciplinador, que “entrega” os alunos pa ra a direção ou para as coordenadoras pedagógicas.

De modo geral, fica ocioso durante as aulas, e seu trabalho se resume aos horários de intervalo entre as aulas, e na entrada e saída dos alunos da escola.

Neste ano, estamos fazemos uma experiência diferente aqui em nossa escola. Depois de termos feito a capacitação do nosso APP, mudamos seu papel na escola. Ele precisa trabalhar o tempo todo. Fica circulando nos corredores. Os alunos só saem da sala com um cartão autorizado pelos professores. Ao saírem, ele os acompanha ao local de destino.

Está constantemente orientando os alunos. Faz mesmo o papel de pedagogo no sentido etimológico da palavra. Procura conduzir os educandos no caminho do bem.

Lembre-se: o ser humano precisa se acompanhado. Por que quando alguém está num grupo faz coisas que sozinho não faria? Porque no grupo a pessoa consegue dividir a culpa. Um vai tentar jogar a culpa sobre o outro. Em outras palavras: o Freud chamou isso de mecanismo de transferência, ou seja, projeto nos outros as coisas que são de minha responsabilidade.

De tal modo que se o APP está presente o tempo todo orientando, acompanhando o movimento dos educandos, eles, ao sentirem que estão acompanhados, não terão coragem de “aprontar”.

Ao menos até aqui os resultados vem sendo muito bons. São unânimes os comentários de aprovação dos professores e equipe de coordenação, em relação ao bem que está fazendo a presença contínua do APP do lado de fora das salas.

Estou cônscio que a presença de um bom APP diminui o custo fixo das escolas. Muitas vezes há excesso de pessoal nas equipes de apoio aos professores, sem produzir os resultados desejados. Aqui em nossa escola isso foi uma realidade.

3. A importância de professores comprometidos

No tocante a essa ideia creio que há consenso entre nós. Por isso dispensa maiores comentários.

Termos uma equipede professores que vivenciam a práxis-orgânica[2], faz toda a diferença. Razão pela qual é fundamental que a escola invista continuamente na formação do seu quadro docente, mas entendo que é fundamental que eles sejam ouvidos acerca dos temas a serem abordados.

4. A importância de um bom diretor (a) na escola

Em face dessa temática recordo-me de uma palestra que assisti de uma professora da UnB, em 1995. Ela foi a Curitiba falar sobre o paradigma da qualidade total. Trata-se de Cosete Ramos. Lembro-me que discordei dela na ocasião sobre essa questão, mas pula isso agora.

Contudo, ela ensinou-me algo com o qual concordo. Disse: “a porta da qualidade de uma escola começa pela direção”. Hoje veja que isso é uma verdade. O (a) diretor (a) necessita ter liderança. Se ele/ela for um ator social que leva a sério a materialização da práxis-orgânica, os demais tendem a segui-lo.

É dele a responsabilidade de cuidar do clima organizacional, entre outras tantas coisas. Sua forma de agendar na Estrutura de Pensamento dos seus liderados fará toda a diferença.

No livro Aprender a Viver, de Luc Ferry (ex-ministro da Educação da França), há algo que também me marcou. Que se quisermos ter um mundo mais sustentável, devemos lutar com tanto afinco, como se isso dependesse só de nós.

Assim eu vejo o papel de uma direção de escola. Alguém tão comprometido com o fazer pedagógico que está sempre buscando se superar. Alguém que tenta fazer melhor aquilo que já está conseguindo fazer bem. Por conseguinte, sua equipe irá segui-lo. Ao menos é assim que o mundo me parece.

5. Por que ter o xadrez na escola?

Há várias razões que justificam esse projeto nas escolas. Aqui, de forma breve,
vou elencar algumas:

- o investimento é relativamente baixo;

- esse jogo é fundamental para a ginastia da inteligência, ou seja, da mesma forma que necessitamos exercitar nosso corpo para termos longevidade, nossa mente também necessita. O xadrez é ótimo no tocante a isso. Eu mesmo sou testemunho disso. Aos 16 anos, depois de ter reprovado por 04 vezes, uma das coisas que ajudou a melhorar minha aprendizagem foi o xadrez. Tornei-me um jogador razoável, e isso também foi fundamental nas aulas de lógica que tive na faculdade. Até hoje sinto os benefícios do xadrez em minha vida;

- nesse jogo aprendemos a conviver com pessoas de diferentes classes sociais;

- aprendemos que a disciplina e a concentração são fundamentais se quisermos
atingir nossos objetivos.

Enfim, entendo que são tantos os benefícios do xadrez que uma escola que pretende ter bons educandos necessita ter esse projeto em suas dependências.

6. A importância da valorização das múltiplas inteligências

Coloquei esse título para dar uma dimensão mais lato sensu ao que pretendo dizer. Ao tratar das múltiplas inteligências estou me referindo a tudo o que pode ser acrescentado às atividades da escola, além do ambiente da sala de aula. Notoriamente que o espaço onde ocorrem as aulas também é um momento privilegiado para que os educadores trabalhem essa temática.

Contudo, serei mais específico. Nós temos um projeto em nosso Colégio que é o do teatro. Os resultados estão sendo fantásticos. É visível o quanto alguns alunos amam o teatro. A grande maioria quer participar. Há vários momentos que chamamos os pais para assistirem às apresentações do que seus filhos prepararam. O contentamento dos pais também é enorme. Existem apresentações deste o maternal até o Ensino Médio. Os pais têm oportunidade de assistirem vários porque começamos a colocar as apresentações não de forma sequencial, mas intercalando os anos de ensino. Assim fica nítida a evolução no crescimento das crianças.  Havia vários alunos que sofriam com o isolamento social. Hoje com o teatro se soltaram, começaram a interagir com o grupo. Sua autoestima melhorou, e é claro o indicativo que teremos grandes artistas se destacando nas artes cênicas num futuro breve.

Razão pela qual penso que o ensino das artes em geral é fundamental no processo ensino-aprendizagem. Notoriamente que destaquei aqui o teatro por que é o que vem dando certo em nossa escola, mas há outros, como música, o trabalho com argila, etc.

7. No tocante aos feitos: qual é a obra da sua escola?

Estou lhe escrevendo sobre isso para dizer que estou convencido que uma instituição de ensino que pretende ser séria necessita ter ações concretas. De nada adianta, por exemplo, falar do meio ambiente se não agir no ambiente. É preciso sujar as mãos no sentido gramsciano da palavra. Para ele isso significava a mão na massa. Ter obras faz toda a diferença.

Lembre-se: as palavras convencem, os exemplos arrastam. Esse provérbio chinês vem ao encontro do que defendo. Por isso concordo com Espinosa quando diz que é pelas obras que conhecemos alguém.

Neste sentido, Lúcio Packter sistematizador da Filosofia Clínica, sempre nos ensina que nossa história é nosso testemunho.

Dessa forma é preciso que consigamos envolver nossos estudantes em ações concretas. Demonstrar como é possível materializar o que falamos em sala, no que acreditamos.

Acerca disso lembro-me ainda, de que no ano de 2011, por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente fomos com alguns educandos do Ensino Médio fazer a limpeza do principal rio que abastece a cidade de Cascavel. Depois desse feito os alunos deram testemunho do quanto aquilo havia sido importante para sua formação. Passaram a ver a questão ambiental de forma diferente.

Na época que estudei na vida religiosa, vários foram os formadores que contribuíram de forma decisiva na minha formação. Destaco aqui um deles, o Padre Mário. Ele era um homem de ação. Ele ia à frente. Não só falava, fazia. Vivia o que falava.

O que fica são nossas atitudes, nossas abras. Se as mesmas forem humanistas, nos eternizaremos no coração dos nossos educandos. Teremos o reconhecimento da sociedade. Vide a vida e a obra de Paulo Freire.

Ao chegar ao final desse artigo, sinto-me em paz por poder ter partilhado contigo, o que estamos vivendo em nossa escola. Minha intenção central não foi lhe mostrar que o fazemos é melhor do que as outras instituições estão fazendo, mas sim, encorajar você a continuar suas ações como educador ou educadora. Isso na escola, em casa ou no local em que trabalha. Vale a pena a luta quando estamos cônscios de que não estamos sozinhos. Que há muitas pessoas tentando dar o melhor de si para ajudar a Educação do nosso país a ser melhor.

Quando fazemos o é que bom para nós e para o conjunto da humanidade, os resultados chegam. Por isso o provérbio patitentia est ars pacis (a  paciência é a arte da paz) tem sua razão de ser.

Caso você queira fazer um comentário acerca do que escrevi, por bondade, escreva-me diretamente através do meu endereço eletrônico que é:ivo@itecne.com.br


[1] Ivo José Triches. Especialista em Filosofia Pensamento Contemporâneo pela PUC-Pr; Em Filosofia Política pela UFPR; Filosofia Clínica pelo Instituto Packter Mestre em Mídia e Conhecimento pela UFSC. Professor e membro do Conselho Gestor do ITECNE. Diretor do Colégio e das Faculdades Itecne de Cascavel ivo@itecne.com.br

[2] Esse neologismo foi criado por mim e está no livro Um caminho para viver melhor. Trata-se da relação dialética entre dez dimensões. A teoria, a prática, a tekne, o comprometimento, a sociabilidade, a poésis, o escolher-se, o humanismo, o alterdidatismo e a vontade. Tal livro  foi editado pela nossa Editecne.  Caso tenha interesse ele está à venda nas Livrarias Curitiba ou comigo pelo endereço ivo@itecne.com.br

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QUANDO EU PODIA, NÃO QUIS. AGORA QUE EU PRECISO, NÃO POSSO!

Escrito por Ivo José Triches[1]

Ama-se o que se conquista com esforço”.   Aristóteles

O título deste artigo “fala” por si só. Contudo, antes de começar a refletir sobre o mesmo. Pretendo lhe dizer como cheguei a ele.

Eu e meu amigo – Marcelo A. B. Moraes que é professor em Campo Largo, Paraná – estávamos vivenciando a nona dimensão do conceito de práxis-orgânica, qual seja, o alterdidatismo. Sobre a semântica desses conceitos você encontrará muitas informações no meu segundo livro: Um caminho para viver melhor.

Naquele momento de formação compartilhada meu amigo pegou o livro que estava lendo, cujo título é: Qual é a tua obra? Do filósofo M.S. Cortela. Pediu-me para ler o penúltimo parágrafo do livro. Nele havia uma citação de outro Filósofo. Trata-se do Beneditino F. Rabelais. Esse por sua vez é do Século XVI.  E que citação era? Rabelais disse assim em sua obra Gargântua Pontagruel: “conheço muitos que não puderam quando deviam, porque não quiseram quando podiam”.

Depois desse momento de diálogo com meu amigo, comecei a partilhar com outras pessoas o que havia aprendido. Todos ficaram mesmo pensativos. Diziam que tal citação se aplicava em algumas situações de sua vida. Nessa história toda acabei por mudar sua afirmação. Disse na verdade, a mesma coisa, invertendo o sentido da frase.

1 A RELAÇÃO ENTRE O QUE RABELAIS DISSE COM O QUE MEU PAI ME FALOU

Recentemente eu ouvi do Fernandão, hoje técnico do Internacional de Porto Alegre, a seguinte expressão: “inteligente é o que aprende com seus próprios erros, mas sábio é aquele que aprende com os erros dos outros!”. Isso me fez pensar muito. Eu comecei a associar essa sua afirmação como muitas falas do meu pai que já partiu. Seus acertos e erros ao longo dos seus 70 anos vividos marcou não apenas a mim, mas, certamente, meus quatro irmãos e as cinco irmãs que tenho.

Esta reflexão que hora lhe apresento versa basicamente sobre uma de suas afirmações que vem ao encontro do que aprendi com Rabelais como  escrevi acima.

Faz dez meses que meu pai partiu. Uma semana antes da sua morte estive com ele. Ele encontrava-se fortemente abatido por uma doença de origem oncológica, teve um momento de pequena melhora.

Naquele momento ele ainda podia andar, mesmo de forma lenta. Então fizemos uma pequena caminhada a sós. Entre outros temas que fizeram parte do nosso diálogo, eu lhe perguntei: – “pai, existem mais mulheres ou homens viúvos”? Ele me respondeu: – “mais mulheres, claro” Então eu lhe fiz mais uma pergunta: – “e por que muitos  homens partem antes das mulheres”? Eis a resposta: – “porque os homens facilitam em quase tudo”.

Querido leitor ou leitora, essas palavras não saem mais da minha memória. Depois de ter compreendido e sistematizado o que está hoje no título deste artigo, comecei a fazer as conexões entre ambas. Dei-me conta que há uma relação de semelhança entre o que meu pai disse e o escrito de Rabelais.

Ambas as afirmações podem ser aplicadas nas mais diferentes situações de nossa existência. Compreendi que meu pai estava se referindo a ideia de que os homens, de modo geral, são mais viciosos do que as mulheres. Por quê? Porque muitos homens se deixam dominar pelos objetos mais facilmente. Como exemplo: a pinga, jogo, carne gorda, cerveja, mulheres, a gula, carro, etc.

Evidentemente que há mulheres viciosas, só que, de modo geral, elas se cuidam mais. Eu conheço homens que fetichizam carros. Compram carros potentes a preço alto. Pegam uma “bíblia” para pagar (o tal do carnê). Pior: do antigo e novo testamento. Pagam um seguro caro. No primeiro chiado diferente que ouvem, levam imediatamente para o mecânico. Ao passo que o seu próprio “carro” (seu corpo) está com a “lataria” e com o “motor” com problemas e ele nada de ir ao médico. Moral da história: depois vêm as consequências.

Lembro-me de uma entrevista que o ex-senador Vilson Kleinübing deu à Folha de São Paulo pouco tempo antes de morrer. O repórter perguntou o que ele pensava do cigarro. Disse: “foi a pior besteira que eu fiz”. Certamente essa sua fala se aplica nas duas frases acima explicitadas.

Creio que você já deve ter pensado que isso se aplica também em alguma circunstância de sua vida. Apenas para explicitar um pouco mais, penso que essa afirmação de Rabelais se aplica à vida de muitos que passaram pela escola. Quando podiam estudar, não quiseram. Fizeram pouco caso dos professores.

Estes por sua vez, tomados pela preguiça não estudaram. Depois na hora de um concurso público ou no momento de um processo seletivo para conquistar um bom emprego na iniciativa privada, não tiveram condições de passar.

A minha dor existencial como educador hoje é ver que muitos estão fazendo curso à distância do conhecimento, mesmo na modalidade presencial. Querem cursos rápidos. Sem grande esforço. Não há milagre. Se quisermos de fato ter muitos conhecimentos, o esforço é inevitável. Observe ao seu redor: aquele que escolhe o caminho mais fácil hoje terá o caminho difícil amanhã.  Entretanto, aquele que escolhe o caminho mais difícil hoje, no dia de amanhã o caminho será mais leve.  De modo geral é assim. Ao menos é o que constato
de forma empírica.

Em relação à obesidade isso não é diferente. Quantos que hoje tomados pela preguiça e pelo vício da gula estão muito acima do peso? Claro que há pessoas que sofrem desse mal por questões orgânicas, mas o fato é que eu conheço inúmeras pessoas que simplesmente fizeram de vida um culto às emoções. Desejam o hedonismo imediato sem pensar nas consequências.

Em face deste assunto do parágrafo anterior, também me dei conta que estava errando. Como pretendo até 107 comecei refletir: como chegarei até lá se não mudar meus hábitos alimentares? E ainda, se não cuidar da lataria e do motor do meu carro? Ora,para cuidar do motor (coração) estou fazendo atividades aeróbicas. Para deixar “lataria” (restante do corpo) em bom estado de conservação, estou fazendo alongamento e musculação.

Por fim, mas não por último minha intenção central neste artigo é contribuir com sua formação. Que você cuide do seu corpo e de sua alma, desejando que isso que meu pai e que Rabelais afirmaram nunca se apliquem em sua vida. Sugiro que volte ao início e releia a frase de Aristóteles. Ela também é de grande valia. Vale a pena repetirmos a mesma aos nossos alunos e ou aos nossos filhos.

Caso você queira fazer um comentário acerca do que escrevi, por bondade, escreva-me diretamente através do meu endereço eletrônico que é:ivo@itecne.com.br


[1] Ivo José Triches. Especialista em Filosofia Pensamento Contemporâneo pela PUC-Pr; Em Filosofia Política pela UFPR; Filosofia Clínica pelo Instituto Packter; Mestre em Mídia e Conhecimento pela UFSC. Professor e membro do Conselho Gestor do ITECNE. Diretor do Colégio e das Faculdades Itecne de Cascavel. ivo@itecne.com.br
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A DIFERENÇA ENTRE DEMOCRACIA DELEGATIVA E DELIBERATIVA: pelo fim da exclusão política

Por Ivo José Triches e José Luiz Ames[1]

No cerne do modelo democrático atual está a ideia do sufrágio universal. O sufrágio universal (direito de todos poder votar e ser votado), na maneira como funciona em nosso meio, faz com que impere na política a mesma lógica competitiva que domina no mercado. A democracia passa a ser vista como um “mercado”, isto é, um mecanismo institucional para eliminar os mais fracos e estabelecer os mais competentes na luta competitiva pelos votos e o poder. O papel central nesta competição está destinado à liderança política.

Democracia delegativa

Este modelo de democracia apresentado acima  é conhecido como democracia delegativa. Há outros autores que preferem utilizar o conceito Democracia Representativa, para referir-se a esse modelo político que surge a partir da modernidade. Mas o que significa esse modelo?

A democracia delegativa é fortemente individualista. Pressupõe-se que os eleitores elejam, independentemente de suas identidades e afiliações, a pessoa mais capacitada para cuidar dos destinos da coletividade. As eleições nas democracias delegativas são um processo extremamente emocional e que envolve altas apostas: vários candidatos competem entre si para saber quem será o ganhador da delegação para governar sem quaisquer outras restrições, a não ser aquelas impostas pelas relações de poder.

A democracia delegativa, como vemos, transfere (“delega”) ao eleito o direito e a responsabilidade pelos destinos da coletividade. Os eleitores (“delegadores”) limitam sua participação política à eleição. Os cidadãos se comportam em relação aos candidatos como consumidores: escolhem o “produto” que melhor responde aos seus desejos. A propaganda eleitoral contribui decisivamente para a mercantilização da política. As lideranças apresentadas como candidatos recebem uma produção similar àquela que é feita para vender qualquer produto comercial: o consumidor (eleitor) compra (vota) pela embalagem. Por isso, o argumento de que o “mais capaz” é eleito não procede. Por causa da propaganda, o eleitor não tem como saber quem é o mais preparado.

Democracia deliberativa

A exclusão do cidadão do processo de tomada de decisão política é, portanto, inerente ao modelo da democracia delegativa ou representativa. Essa constatação reacendeu o debate atual em torno da teoria da democracia deliberativa que, obviamente, coloca profundamente em questão o modelo da representação política. Alguns autores também denominam esse modelo como de democracia direta.  Com efeito, a ideia da representação política implica em que os representantes discutem entre si e deliberam. Não existe debate com a sociedade para formar a opinião e a vontade pública.

A teoria da democracia deliberativa, ao contrário, consiste na ideia segundo a qual, a opinião e vontade pública resultam do debate estabelecido pelos próprios cidadãos e não por seus representantes eleitos, tão somente.

A concepção deliberativa da democracia é uma postura contrária ao elitismo. Neste sentido, opõe-se à ideia que concebe a classe política como responsável pelo governo e para a qual o exercício da cidadania se limita à eleição periódica dos representantes. Segundo a concepção deliberativa da democracia, a opinião e a vontade pública devem resultar do debate contínuo e continuado dos próprios cidadãos.

A democracia deliberativa distingue entre o âmbito do mercado e o da política. Enquanto no domínio do mercado o indivíduo pode escolher unicamente em vista de sua vantagem pessoal, no campo político as escolhas devem levar em consideração as demais pessoas. Por essa razão, democracia pressupõe debate e possibilidade de rever decisões. A decisão sobre aquilo que é mais adequado à coletividade não tem como ser estabelecido por nenhum instrumento científico e, muito menos, por uma liderança, ainda que eleita pela maioria. Somente o consenso que resulta da argumentação, do confronto de opiniões, é capaz de determiná-lo.

Outro aspecto da democracia deliberativa é que nela são levadas em consideração, como unidades fundamentais, as pessoas e não os grupos. Isso implica em privilegiar a defesa dos direitos das pessoas sobre a maximização dos benefícios de grupos de interesse e de facções. Por fim, a democracia deliberativa considera que o sistema político de tomada de decisões deve basear-se, primordialmente, na discussão. A importância da discussão pode ser vista em vários pontos: previne erros; ajuda a impedir a adoção de decisões parciais; educa para a cidadania na medida em que exercita a capacidade de argumentar e de aceitar posições opostas.

A teoria da democracia deliberativa não pode ser confundida com o modelo da democracia direta dos antigos. Como aquele na Atenas do séc. V a.C. Lá apenas os homens podiam participar e dentre eles, somente aqueles que tinham posses. Notoriamente, na democracia direta grega ela foi possível porque a unidade  política era pequena. A democracia deliberativa, ao contrário, é uma teoria que toma em consideração a realidade dos grandes Estados modernos. Insiste na ideia de que o cidadão precisa ter garantido espaços através dos quais possa ocorrer o confronto das opiniões. Neste sentido, rompe com o modelo representativo, que se apropriou do direito de determinar o que é vontade pública.

Em grande medida as novas forças produtivas em curso estão facultando a existência dessa prática de  democracia. No Brasil a experiência da prática do Orçamento Participativo que ocorreu em Porto Alegre na década de noventa do
século passado, contou com a ajuda da Internet. O ciberespaço te se transformado numa poderosa ferramenta do controle dos gastos públicos, de um meio para chamar os cidadãos para prática da democracia deliberativa. Assim nossa participação no cuidado da coisa pública (res publica) tem ocorrido de forma mais direta, sem termos que contar sempre com nossos representantes que delegamos para esse fim.

Cidadania e Estado democrático

A democracia pressupõe cidadãos iguais, e a noção de cidadania não se entende sem um sistema de direitos. Assim como a ideia de cidadania alude a indivíduos que participam como atores da vida política e social, a função da democracia é assegurar direitos fundamentais para todos. Isso nos evidencia o paradoxo: vivemos em sociedades democráticas com cidadãos nominais, isto é, cidadãos incompletos que não podem exercer plenamente os atributos correspondentes a
esta condição.

Sem dúvida, não se pode reduzir a crise da cidadania à esfera da exclusão social. Antes, o que está em crise é o sentido mesmo da cidadania moderna como sistema de integração. Na verdade, é preciso explorar outra concepção, mais inclusiva, de cidadania: cidadania como um conjunto de direitos e práticas participativas exercidas tanto no plano do Estado como da sociedade civil e que confere aos indivíduos uma pertença real como membros da comunidade política. A ideia de cidadania não deve se restringir à pertença formal de um indivíduo a um Estado, mas também a sua pertença a múltiplas formas de interação social. Em outras palavras, o conceito de cidadania não pode esgotar-se na figura portadora de direitos exercidos frente ao Estado, e sim que pode integrar as práticas que se desenvolvem no interior de uma vasta rede de associações que, operando desde a sociedade civil, é capaz de contribuir para a perfeição da ordem coletiva. O cidadão se reconhece como membro de uma coletividade política não somente por seu vínculo de nascimento em uma nação, mas também pela prática de todos os dias, em sua conexão com o curso cotidiano das coisas.

É possível, pois, pensar numa dimensão de cidadania autônoma, ou independente, em relação ao Estado. A preocupação pelos “assuntos de todos” (ou res publica) não é redutível à ideia de “interesse geral” supostamente representada pelo Estado. Antes, a defesa do interesse geral é um problema de todos e não apenas  do Estado. Os assuntos comuns se difundem também pela sociedade civil, para constituir um lugar comum, um espaço público, no qual os cidadãos que abandonam seu refúgio da vida privada se reúnem para interrogar e controlar o poder e construir vínculos sociais solidários.

Considerando o que dissemos, a noção de cidadania precisa ser redefinida para não se identificar somente com o Estado, com um sistema de direitos e deveres, pois os problemas da “coisa comum” não se discutem somente no âmbito do Parlamento, mas também na mídia e na sociedade civil de modo geral. A seguridade social, por exemplo, já não é unicamente um problema do Estado, embora continue sendo. É também um problema que diz respeito a todos os cidadãos que, através de diversos mecanismos de cooperação, podem tornar possível que a sociedade civil compartilhe com o Estado a responsabilidade da solidariedade social.

Esta redefinição da noção de cidadania realça (e torna consciente) as atividades que o indivíduo desempenha como cidadão da sociedade civil. Esta noção de cidadania alude, portanto, a uma dupla atribuição: ao Estado e à sociedade civil. No primeiro caso, o indivíduo é membro de um corpo político-institucional que garante seus direitos políticos, civis e sociais. No segundo, o indivíduo é membro de um espaço público associativo que requer práticas de auto-organização coletivas desde as quais pode reforçar e estender sua condição de cidadão. Em ambos os casos o cidadão é membro da mesma comunidade. Em suma, o cidadão do Estado não cancela o cidadão da sociedade civil, nem vice-versa.

Palavras Finais

Refletirmos sobre possibilidade de uma nova forma de democracia mais humanizada foi nossa intenção. Se nós conquistaremos a hegemonia da prática da Democracia Deliberação num futuro próximo ainda é uma incógnita. Contudo, ela pode vir a acontecer. Para tanto cada um ao seu modo pode contribuir para isso à medida que tenha uma participação mais efetiva na vida da coletividade.

Superarmos o vazio ético que uma das características da pós-modernidade é uma das condições para isso.

Caso você queira fazer um comentário acerca do que escrevi, por bondade, escreva-me diretamente através do meu endereço eletrônico que é:ivo@itecne.com.br


[1] José Luiz Ames é doutor em Filosofia, professor da Unioeste. E-mail: profuni2000@yahoo.com.br

 

 

 

 

 

Ivo José Triches é diretor das Faculdades Itecne de Cascavel e Professor Titular do Centro de Filosofia Clínica de Cascavel. E-mail: ivo@itecne.com.br blog: www.itecne.edu.br/ivo

 

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UMA PAIXÃO DA ALEGRIA: A AMIZADE

Escrito por Ivo José Triches[1]

“O desejo da amizade nasce de repente, mas a amizade nem tanto assim”. Aristóteles

Primeira observação: Este artigo foi inicialmente publicado na revista Filosofia, da Editora Escala. Saiu na edição de número 30. Eu também publiquei este trabalho no meu segundo livro: UM CAMINHO PARA VIVER MELHOR. modifiquei o título. É um artigo um pouco longo, mas creio ser rico para fortalecimento da nossa alma. Boa leitura!

Segunda observação: É apenas uma sugestão. Este artigo poderá ser trabalhado nas aulas de filosofia. Os alunos o leriam a partir da divisão em grupo e depois socializariam para os demais. Assim como alguns outros artigos  neste blog, poderão servir como apoio para o trabalho dos professores. Todos estão autorizados para copiar e colar este meu trabalho. Peço apenas que citem a fonte.

Nas linhas que seguem você encontrará uma reflexão sobre a importância da amizade. Tal reflexão vem ao encontro da necessidade de pensarmos nos relacionamentos que estabelecemos com nossos colegas de trabalho, familiares e principalmente aqueles que de uma forma ou de outra estão mais próximos de nós.

Nosso propósito, inicialmente, é situar a amizade entre os diferentes conceitos de amor no mundo grego. O próximo passo é apresentar uma visão panorâmica acerca da história da amizade. No momento seguinte, evidenciarmos o que alguns filósofos, escreveram sobre este tema. Em relação a isso, a ênfase maior dar-se-á em torno do que Aristóteles escreveu, já que os que o sucederam basicamente comentaram o conteúdo dos capítulos oitavo e nono da Ética a Nicômaco, uma de suas obras.

Veremos que eles nos mostraram que a amizade pode nos ajudar a melhorar o nosso Endereço Existencial[2],sendo este, portanto, o grande objetivo do presente escrito.

A amizade como mais uma forma de amor

Em nossa língua portuguesa nós utilizamos o conceito amor para definir muitas coisas. É comum ouvirmos pessoas que dizem:”eu amo meus pais! eu amo meus filhos! Eu amo a natureza!” Quem é mais religioso costuma dizer: “eu amo vir à igreja!” Entre os jovens, às vezes ouvimos:  “Eu amo tal pessoa! Hoje eu quero encontrar alguém para fazer amor!” Assim, o significado da palavra amor toma dimensões diferentes conforme o caso.

No momento histórico em  que a filosofia começou a se afirmar como mais uma forma de conhecimento da realidade, isso lá no mundo grego, o conceito amor tinha pelo menos oito significados diferentes. Estes conceitos serão apresentados a seguir de forma breve.

A primeira forma de amor era o Pornéia[3], ou seja, um amor voraz e devorador. Como exemplo, temos o amor da criança em relação ao processo de amamentação. Depois nos deparamos com uma forma de amor possessivo a que eles chamavam de amor Pathé e mania. Observe que é o mesmo radical da palavra patologia e o mesmo de paixão. Daí que, para Platão, a paixão era uma enfermidade do coração e precisava ser controlada.

Na escala dos diferentes níveis de amor para os gregos encontraremos o amor Eros. Aqui temos o amor desejo. Eu a amo por isso maravilho-me com ela. Quero que ela esteja próxima a mim para que eu possa cuida-lá. Estas três primeiras formas de amor nós as definimos como amor sentimento. Isso porque elas nascem na parte vegetativa, como dizia Aristóteles.

A primeira forma de amor atitude que assim definimos[4], para os gregos era o amor Estorgue. O que para eles tinha o significado de amor harmonia. Ele ocorre em nós quando desejamos nos harmonizar com os outros, com nós mesmos ou com a natureza.

O próximo é a razão deste escrito, o amor Philia[5] : amizade. Para eles esta forma de amor sofria variações. A forma de amor entre parentes, dos pais para com seus filhos e vice-versa ele denominavam amor Physiqué. A philia Zeiniqué era o amor enquanto hospitalidade. Receber bem os amigos em nossos lares. Já a philia estouriqué significava o amor entre duas pessoas. Uma doando-se para a outra. Querendo também que o outro seja feliz. Um sem ter inveja do outro. Portanto, a autêntica amizade.

Depois temos o amor Énnoia como devotamento, como dom ou doação. O próximo era amor Kháris. O amor gratidão. Para eles era muito significativo olhar para alguém e poder dizer:    “muito obrigado por você existir na minha vida!”

Se usarmos o arco-íris como metáfora  poderíamos dizer que a última cor seria o amor Ágape. Este, para os gregos, significava a gratuidade, o amor incondicional ao outro. Eu faço o bem pelo prazer em  fazê-lo. Sem desejar nada em troca. O que os cristãos[6] chamaram de amor caridade.

Antes de passarmos para o tópico a seguir gostaríamos de destacar que nos parece uma realidade o fato de muitos atores sociais só conhecerem algumas cores deste “arco-íris”. Razão esta que nos permite compreender porque suas dores existencias comumente se manifestam em suas vidas.

Os gregos nos deixaram o legado de é importante encontrarmos a justa medida, o Kairós[7]. Por isso a expressão na língua latina virtus in medio, ou seja, no meio a virtude. A idéia de que o bom senso acontece em nós quando evitamos os extremos. Nem tomar vinho em excesso nem ficar sem tomá-lo.

Visão Panorâmica da amizade ao longo da tradição filosófica Ocidental.

No mundo grego ela ocupava um lugar de destaque. Contudo, acreditava-se que a amizade autêntica só poderia ocorrer entres os atores sociais do gênero masculino.

Com o advento do Cristianismo, o amor Philia foi relegado a um segundo plano. No seu lugar o amor Ágape se destaca. E por quê? Por causa do amor caridade triádico. Para os cristãos, só tem sentido eu amar o próximo se nele eu puder ver a imagem e semelhança de Deus. Por isso exige que no amor caridade estejam presente três seres. Eu, o próximo e Deus. Ao passo a amizade é diática. Porque a relação ocorre entre e o e outro apenas.

Outro aspecto a ser destacado é que a teologia cristã exige que a caridade seja absoluta. Devemos amar a todos indistintamente. Na amizade não é isso que encontramos. Sua dimensão é facultativa. Eu posso escolher com quem eu quero construir uma relação de amizade.

Uma terceira característica que diferencia esta forma de amor é que, se para caridade a relação pode não ser recíproca, para o amor Philia exige-se a reciprocidade. Assim não é possível ser amigo de alguém que não seja , por sua vez, meu amigo.

Ao longo dos séculos da era cristã a hegemonia do amor caridade foi absoluta. No entanto, no séc. XVIII, com o surgimento do Iluminismo, esta forma de pensar começou ser questionada. Foi um período histórico em que a possibilidade de haver também amizade entre os dois sexos começou a ser cogitada. Isso ocorreu porque os ideais de liberdade, igualdade e de fraternidade começaram a ser difundidos de forma mais  intensa. Neste momento o amor Eros também se destaca. O que vemos a partir daí foi a anexação da amizade por parte do amor Eros e do Amor Filia. Isso ocorre durante os séculos XIX e XX.

Somos partidários da tese de Máximo Baldini que na sua obra Amizades e Filósofos, nos diz que não podemos aceitar que seja dado um atestado de óbito ao amor Philia. Assistir a isso de braços cruzados é permitir que as dores existenciais se proliferem por toda a parte. Veremos a seguir a reflexão que Aristóteles e mais alguns outros filósofos nos deixaram sobre este tema e como tais contribuições poderão nos ajudar em nossa vida cotidiana.

A Amizade a partir do pensamento de Aristóteles

Ao começar a escrever sobre este assunto o célebre filósofo nos diz que a amizade “é extremamente necessária à vida”. Seu argumento que justifica esta afirmação reside no fato de que “ninguém escolheria viver sem amigos, ainda que dispusesse de todos os outros bens, e até mesmo pensamos que os ricos, os que ocupam altos cargos e os que detêm o poder são os que mais precisam de amigos”.

Vivemos em um momento histórico em que o mundo do ciberespaço[8] parece
nos mostrar que é possível vivermos no mais puro solipsismo.  Tudo parece concorrer para isso. A violência também contribui para isso, principalmente nos grandes centros urbanos. Existe a ilusão de que é possível vivermos sem amigos. De que a tecnologia nos suprirá esta lacuna.

Para fazer frente a este isolamento social característico dos nossos dias Aristóteles pode nos ajudar.

De fato, de que serviria tanta prosperidade sem a oportunidade de fazer o bem, se este se manifesta, sobretudo e em sua mais louvável relação com os amigos? Ou então como se poder manter e salvaguardar a prosperidade sem amigos? Quanto maior for ela, mas perigo correrá. E por outro lado, as pessoas pensam que na pobreza e no infortúnio os amigos são o único refúgio.

Para ele a amizade pode ajudar os jovens a evitar o erro. Ajuda o mais velhos à
medida que serão amparados em suas necessidades e os que estão no pleno vigor da idade poderão ter suas ações melhoradas. Isso porque amigos são pessoas “que andam juntas” e por isso “são mais capazes de agir e pensar” um procurando lapidar o outro.

Os três conceitos de amizade para Aristóteles

O que torna a leitura acerca deste tema algo significativo na obra de Aristóteles
foram as três definições de amizade que ele apresentou. Mais tarde Kant retoma tais definições apenas estabelecendo uma pequena diferença na terceira.

Para Aristóteles o primeiro tipo de amizade é a amizade útil. São “aqueles que fundamentam sua amizade no interesse, amam-se por causa de sua utilidade, por causa de algum bem que recebem um do outro, mas não amam um ao outro por si mesmos”.  Este tipo de amizade ocorre principalmente entre os mais velhos.  Se preciso de um médico de confiança ou de um sapateiro, então me aproximo deles e faço amizade. Quando já não preciso do médico e nem tenho mais calçados para mandar arrumar já não mais necessitarei ter amizade com eles.

Essa espécie de amizade parece existir sobretudo  entre os mais velhos (pois na velhice as pessoas buscam não o agradável, mas o útil), e entre os jovens que buscam a utilidade. Mas tais pessoas não convivem muito umas com as outras, pois muitas vezes nem sequer se vêem com agrado e por isso não sentem necessidade da convivência, a menos que ela seja mutuamente proveitosa. O convívio só lhes é agradável enquanto desperta uma na outra a esperança de que algum bem lhes possa acontecer.

O segundo conceito de amizade é o de amizade agradável. Razão pela qual “o mesmo se pode dizer a respeito dos que amam por causa do prazer; não é por causa do caráter que os homens amam as pessoas espirituosas, mas porque as consideram agradáveis”. Este tipo de amizade não deixa de ser egoísta, porque “os que amam os outros por causa do interesse, amam pelo que é bom para eles mesmos”.

Entre os jovens esta se destacaria, uma vez que estes são guiados mais pela emoção e por isso de pronto procuram mais o que lhes dá prazer. É agradável ficar perto dela porque ela gosta do mesmo estilo musical que o meu, por exemplo.

Estes dois primeiros conceitos são mais um meio para se atingir um determinado fim. Por isso, Aristóteles nos diz que estes tipos de amizades são acidentais, “pois a pessoa amada não é amada por ser o homem que é, mas porque proporciona algum bem ou prazer. É por isso que tais amizades se desfazem facilmente se as partes não permanecem como eram no início, pois, se uma das partes cessa de ser agradável ou útil, a outra deixa de amá-la”. Isso ocorre porque, como sabemos, o “útil” e “agradável” são valores relativos, ou seja, se modificam constantemente.

Contudo, há um terceiro tipo de amizade. Este, sim, definido e apresentado por Aristóteles como sendo o ideal que ocorresse entre as pessoas. E que tipo de amizade é esta? É A amizade perfeita. Sua definição: “é aquela que existe entre os homens que são bons e semelhantes na virtude, pois tais pessoas desejam o bem um no outro de modo idêntico, e são bons em si mesmos”. Este tipo de amizade não é acidental. Pode tornar-se permanente uma vez que “aqueles que desejam o bom aos seus amigos por eles mesmos são amigos no sentido mais próprio, porque o fazem em razão de sua natureza e não por acidente”.

Ele retoma este conceito presente no pensamento de Platão, que no diálogo chamado Lisis ou da amizade, escreve o seguinte: “somente o homem de bem é amigo do outro homem de bem, ao passo que o malvado não pode chegar à verdadeira amizade nem como o homem bom nem com outro malvado”. Decorre daí a idéia central de que o amigo perfeito é aquele que ajuda o outro a encontrar o caminho do bem. Por isso ela só pode ocorrer “entre duas pessoas que sejam sensíveis e virtuosas” como dizia Voltaire.

É fácil ou difícil construímos com os outros este tipo de amizade? A resposta dele é que não é tão simples como possamos imaginar. “Mas não é natural que tais amizades sejam raras, pois homens assim também são raros”.

Hoje, passados aproximadamente dois mil e trezentos e sessenta anos de tal afirmação podemos também dizer que este tipo de amizade não está por toda a parte porque ainda é raro encontrarmos homens com as características descritas.

Outro aspecto a ser destacado é que uma amizade desta natureza requer tempo e prática. Às vezes eu posso conhecer uma pessoa há vinte anos, mas não posso
dizer que sou sua amiga. E por quê? Vejamos a resposta que ele nos apresentou:

- Além disso, uma amizade dessa espécie exige tempo e intimidade. Como diz o provérbio, as pessoas não podem conhecer-se mutuamente enquanto não tiverem “consumido muito sal juntos”; e tampouco podem se aceitar como amigos enquanto cada um não parecer digno de amizade ao outro, e este não lhe houver conquistado a amizade. As pessoas que depressa mostram mutuamente sinais de amizade desejam tornar-se amigas, mas não o serão, a menos que ambas sejam dignas de amizade e reconheceçam este fato, pois um desejo de amizade pode até surgir depressa, porém a amizade não”.

Considerando o até aqui exposto podemos afirmar que amizade é um conceito que não se pode aplicar a todas as formas de relações sociais. Podemos seguramente afirmar que não há entre os traficantes amizade. Um é apenas comparsa do outro, uma vez que ambos são especialistas na morte e não em desejar o bem da coletividade. São malvados pelas suas atitudes. “De fato, as pessoas más não se deleitam como o convívio uma das outras, salvo se essa relação lhes traz algum proveito” e, ainda, “os criminosos não parecem propensos à amizade, pois tais pessoas não têm muito de agradável, e ninguém deseja passar seus dias com pessoas cuja companhia é dolorosa ou não é agradável, já que natureza parece evitar acima de tudo o que é penoso e buscar o agradável”. Daí não ser possível a amizade entre eles. Utilizar de modo indiscriminado a amizade para significar qualquer tipo de contato social presente em nosso cotidiano é contribuir para a banalização deste conceito.

Quanto ao número ideal de amigos

Uma outra questão que às vezes nos fazemos é a seguinte: Afinal, de quantos amigos eu necessito para viver bem e ser feliz? Esta questão também foi respondida por Aristóteles. O que nos parece evidente é que ele, mais uma vez, confirma aquilo que se repetia com freqüência no pensamento de outros filósofos da época do mundo grego, qual seja, a idéia da justa medida.

Devemos buscar sempre o meio termo. Nem ter amigos em excesso nem querermos viver sem nenhum amigo. Por isso, em relação a esta questão, ele nos disse que “parece que convém não procurar ter o maior número de amigos que pudermos, mas somente quantos forem suficientes para os fins do convívio, visto que parece impossível ser um grande amigo de muitas pessoas”.

A relação entre amizade e justiça

Aristóteles afirma que a amizade é mais importante que a justiça. Seu argumento que justifica tal afirmação é o seguinte: “quando os homens são amigos não necessitam da justiça, ao passo que mesmo os homens justos necessitam também da amizade; e considera-se que a mais autêntica forma de justiça é uma espécie de amizade”.

O que torna esta afirmação significativa é possibilidade de pensar que se de fato
tal pessoa é minha amiga no sentido de existir entre nós uma amizade perfeita, como ele dizia, então não haverá espaço para que eu pratique alguma injustiça contra esta pessoa. O que importa dizer é que na amizade já está implícito a importância de sermos justos para com os outros.

Ao escrever sobre este tema ele novamente destaca a importância da amizade quando nos diz que ela “não é apenas necessária, mas também nobre, pois louvamos os homens que amam seus amigos e considera-se que uma das coisas mais nobres é ter muitos amigos. Ademais, pensamos que a bondade e a amizade encontram-se na mesma pessoa”.

Ainda em relação a esta temática podemos destacar que o sumo bem para Aristóteles é a idéia da felicidade, e ela, para ser alcançada, necessita da ajuda dos amigos virtuosos. “Ora, alguém que é suficientemente feliz deve ter o que deseja, sob pena de , caso contrário, ser deficiente a esse respeito. Portanto, para ser feliz o homem necessita de amigos virtuosos”.

Outras dimensões que envolvem a amizade

Existe um filósofo brasileiro hoje – Leonardo Boff – que nos diz que a estrutura central do ser humano não é a razão e sim o afeto. Partindo deste pressuposto, podemos então perceber que a amizade ocupa um lugar de destaque, sendo um dos principais bens que são necessários para a boa sociabilidade. Ela nasce da confiança mútua e é uma relação de amor, de afeto de tipo muito especial. E por quê? Porque como dissemos anteriormente a amizade é um sentimento recíproco. Não é possível ser amigo de alguém que não seja, por sua vez, nosso
amigo.

Existe um outro aspecto a ser destacado : às vezes na  amizade pode ocorrer a descontinuidade temporal-geográfica, ou seja, podemos ficar muito tempo sem encontrar um amigo, mas quando o vemos é como se estivéssemos com ele ontem. Um reencontro em que a alegria é intensa. Não há cobrança pelo tempo que passou. Assim, uma relação entre amigos é uma relação de unidade porque nós podemos não estar reunidos o tempo todo, mas sentimos que estamos unidos por esse sentimento de reciprocidade. Eis o que sentimos quando nos encontramos com algum amigo ou amiga com quem já trabalhamos juntos e construímos esse sentimento de unidade, seja pelas afinidades político-ideológicas ou por nossas confidências no campo da vida privada.

Epicuro (341-270 a.C.), pensador grego, tinha a seguinte máxima: “De todos os bens que a sabedoria nos ensina e que são necessários para a nossa sobrevivência a amizade é de longe o maior”. Considerando também que ela se estabelece a partir de uma relação entre iguais, não havendo a possibilidade de nenhuma forma de dominação, podemos dizer que a relação entre amigos se constitui num lugar privilegiado para a materialização dos valores éticos. Uma vez exercitando tal prática, teremos como conseqüência a manifestação concreta daquela outra máxima: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância”.

Muito embora saibamos hoje que muito dos escritos de Epicuro não tenham chegado até nós, sabemos com segurança que ele foi um dos filósofos que enfatizou a importância da amizade. Destacaremos mais dois de seus aforismos: “não temos tanto necessidade da ajuda dos amigos quanto da confiança de sua ajuda” e o outro “a amizade passa pela terra conclamando a todos nós a nos despertarmos a fim de nos parabenizarmos uns com os outros”. Vê-se claramente que a amizade convive bem com o amor Káris descrito anteriormente. Está implícito que na amizade existe a necessidade da gratidão. Torna-se significativo eu poder dizer a um amigo ou amiga:- muito obrigado por você existir na minha vida!

Por isso entendemos que se nos esforçarmos para que nossos encontros – principalmente aqueles da hora do intervalo do trabalho – sejam um espaço de fortalecimento de nossa amizade, pode ser uma ótima oportunidade de fazer com que nossas atividades no campo profissional sejam ainda mais prazerosas.

No entanto, você que acompanha esta reflexão pode, certamente, confirmar a idéia de que o que comumente se vê nesses momentos é alguém falando mal do desempenho profissional de algum colega de trabalho ou mesmo do comportamento moral de alguém. Existe dessa forma apenas um sentimento, que é o da tristeza, porque ocupamos nosso tempo falando da dor e não da alegria como a idéia que aqui defendemos, que seria saborear e fortalecer a amizade.

Na opinião de Maria Lúcia de Arruda Aranha, “talvez não seja muito fácil encontrarmos verdadeiros amigos. Mas, quando os temos, vale a pena cultivar sua amizade, que pode vir durar a vida inteira”. Assim penso que a amizade é igual a uma samambaia: se você cuida dela com carinho e sua intencionalidade é que ela esteja cada vez mais linda, perceberá que ela lhe dará a exuberância de sua beleza.

Portanto, a existência do nosso encontro com outro ator social é uma excelente oportunidade para que possamos cultivar esse que é o maior dos bens, nossa amizade. Por fim, mas não por último, estou convencido de que se assim agirmos faremos do nosso dever o nosso prazer.

Caso você queira fazer um comentário acerca do que escrevi, por bondade, escreva-me diretamente através do meu endereço eletrônico que é:ivo@itecne.com.br

Bibliografia

- BALDINI, Massimo. Amizade e Filósofos. São
Paulo. Ed. Edusc, 2000.

- Aristóteles. Ética a Nicômaco. 4ª Edição. Ed. Martin
Claret, 2000.

- Arranha, Maria Lúcia de Arruda. Temas da Filosofia
/ Mara Helena Pires Martins. São Paulo.  Ed. Moderna, 1992

- Boff, Leonardo. A força da ternura. Ed.
Sextante, 2006.

- Leloup, Jean-Yves. O corpo e seus significados.
10ª edição. Petrópolis, RJ. Ed. Vozes, 2002.


[1] Ivo José Triches

Especialista em Filosofia Pensamento  Contemporâneo pela PUC-Pr; Em Filosofia Política pela UFPR;  Filosofia Clínica pelo Instituto PackterMestre em Mídia e Conhecimento pela UFSC.  É: Professor e membro do Conselho Gestor do ITECNE; Diretor das Faculdades Itecne de Cascavel; Endereço eletrônico: ivo@itecne.com.br

[2] Este conceito na Filosofia Clínica significa a possibilidade que temos de melhorar as condições históricas de nossa existência. Podemos, se assim desejarmos, alterar o já dado, sair de uma condição de dor para um novo momento no qual a vida pode ser vivida com maior leveza e densidade.

[3] Estes conceitos nos foram inicialmente apresentados por Jean-Yves Leloup, autor
do livro O corpo e seus símbolos, da Editora Vozes. Ao compreendermos esta primeira forma de amor compreenderemos a etimologia da palavra pornografia utilizada em nossa língua portuguesa. Formada pelo prefixo “Porno” = derivado de Pornéia e pelo sufixo grafos = escrita, descrição. Daí seu significado. A descrição do que acontece com alguém que é pornográfico, ou seja, que se deixa tomar somente pelo amor Pornéia. Expressa apenas o seu lado mais primitivo.

[4] Aristóteles dizia que estes conceitos dependiam da parte racional presente no homem. Portanto, da nossa vontade.

[5] Como você já deve ter observado em nossa língua portuguesa temos muitas palavras com este radical. Entre ela destacamos aqui a titulo de ilustração: Orquidófilo = o amigo das orquídeas; filólogo =O amigo das palavras; e por fim, mas não por último, a própria palavra Filosofia que é de conhecimento de muitos. “Amigo da sabedoria”.

[6] Ao encontrar-se com a cultura grega que ainda estava latente no mundo romano os apóstolos contaram  o que Jesus tinha feito. Então os gregos passaram a se referir a ele como o maior exemplo de amor ágape. Depois com a tradição difundiu-se a idéia de que o amor ágape é o amor sobrenatural. O amor de Deus para conosco.

[7] Eles tinham dois conceitos de tempo. O Cronos e o Kairós. O primeiro era o tempo medido. Passado, presente, futuro. O segundo o tempo qualitativo ou também chamado de tempo oportuno. Ele ocorre em nós quando conseguimos fazer a coisa certa, na hora certa, na quantidade certa e considerando ainda, as condições apropriadas. Como o médico que decide fazer uma cirurgia levando em consideração todas as condições acima descritas.

[8] A semântica deste conceito é aqui compreendida como sendo o mundo na mais absoluta conexão, onde a memória de um computador menor se conecta a memória de um outro muito maior. Que por sua vez se conecta as demais memórias dos computadores espalhados pelo planeta inteiro.

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Pedir a bênção aos mais velhos pode melhorar o processo ensino-aprendizagem

Por Ivo José Triches[1]

Lembre-se: não há nada sobre o que a Filosofia não possa se debruçar. É desse pressuposto que partirei para construir essa reflexão. Muito embora você perceba que o aspecto valorativo está presente no meu escrito, a dimensão moralista, que comumente envolve esse fenômeno, foi deixada de lado. Se não fosse assim seria doutrina e não Filosofia. Não é essa a minha intenção.

Pedir a bênção aos mais velhos é uma coisa boa ou ruim? Para mim, é boa. O próprio título deste artigo sugere isso. Razão pela qual penso que vale a pena continuar essa leitura.

Em Filosofia, analogia significa raciocínio por semelhança. Para ilustrar a importância deste hábito que há em muitas pessoas de pedir  a bênção aos mais velhos, principalmente aos nossos pais ou parentes, vou me valer desse recurso acima explicitado.

Ao olharmos para os galhos mais finos de uma árvore, mais precisamente nas extremidades deles, poderemos observar que vez ou outra saem folhas novas. Que esses galhos tendem a se expandir. Que enquanto existir vida nas árvores, novos galhos nascerão. Não há como existir um novo galho sem antes haver outra estrutura mais velha. Seja outro galho ou o tronco ou ainda, as raízes. Pois bem! Não há como existir um filho, uma nova criança, sem que houvesse antes algo que o antecedeu e que, portanto, seja mais velho.

Ao ler isso até aqui, talvez você esteja pensando: isso é lógico! O que isso tem de novidade? O que isso tem a ver com a questão da educação? Calma, tchê! Eu vou lhe explicar. Vamos em frente.

Para que exista uma folha nova na ponta de um galho novo, houve a necessidade da existência de uma energia. Essa por sua vez, partiu lá da raiz, depois passou pelo tronco, depois pelo galho, para finalmente chegar a essa folha nova. Da mesma forma, quando eu peço a bênção aos meus pais ou aos meus avós, por exemplo, eu estou buscando energia lá no “tronco”, nas “raízes”. Por que eu faço isso? Para ter força para ir adiante. Para que possamos nos energizar. Para termos nosso conatus fortalecido, como diria Espinosa (1632-1677).

Claro que quando eu faço isso por um simples hábito, sem compreender o real significado, é provável que isso seja apenas mais um gesto de cordialidade para com os mais velhos.

Da mesma forma como uma árvore, que para dar bons frutos necessita ser plantada em terreno fértil, ser bem cuidada, etc., nós, ao pedirmos a benção para aquelas pessoas que admiramos, que foram e são exemplo de consciência moral (pessoa que se esforça para ser ética), estaremos nos abastecendo das melhores coisas a fim de termos força para prolongarmos nossa existência.

1. A influência da benção no processo ensino-aprendizagem

Sou educador há 23 anos. Já exerci muitas atividades nos diferentes níveis da educação. Fui servidor público concursado como professor de Filosofia por dez anos. Nesse tempo fui diretor de escola pública por 04 anos, professor de diferentes disciplinas das humanidades em faculdade, fui professor da rede privada e hoje sou professor, diretor adjunto de uma escola particular. Por que estou lhe escrevendo isso? Para poder lhe dizer o seguinte: sabe qual foi a grande lição nesses anos todos? Que todas as vezes (todas mesmo!) que convivi com alunos indisciplinados, com pouca vontade de estudar, com problemas de dependência química e cujos pais foram chamados à escola e, ao tomarem ciência do que seus filhos estavam aprontando, tomaram partido do seu filho, o mesmo só piorou.

Entretanto, todas as vezes que os pais, ao tomarem conhecimento, passaram a se unir com a escola em face das medidas necessárias a fim de que seu filho mudasse suas atitudes, o educando passou a ter um desempenho melhor nas atividades propostas, suas notas melhoraram etc.

Para fundamentar melhor minha tese aqui proposta, que consiste em demonstrar que aluno que pede a bênção aos mais velhos poderá ter um desempenho melhor no processo ensino-aprendizagem, vou lançar mão da seguinte afirmação de Émile Durkheim (1858-1917): ”as paixões humanas só se detêm diante de um poder moral que a ele respeite”. Isso está no livro de Raymond Aron, “Etapas do Pensamento Sociológico”, da Companhia das
Letras, na parte que começa sua abordagem sobre Durkheim.

Como partilhei acima, minha experiência de 23 anos demonstrou-me que os pais que tomam partido dos seus filhos diante de uma situação de conflito, essa criança só tende a piorar. Por quê? Porque o filho pensa que pode fazer o que lhe der na “telha”. Que sempre haverá alguém que irá defendê-lo. Assim, pensa não haver limite para suas escolhas.

Contudo, aquela criança que pede a bênção, de modo geral, vai desde cedo aprendendo que há alguém a quem deve respeitar. Que colocará freio em suas escolhas. Que uma escolha só é boa se for baseada no seguinte pressuposto: eu só farei aos outros, aquilo que gostaria que fosse feito comigo.

Evidentemente que isso só tem sentido se essa bênção for solicitada àquele ou àquela que procura ter consciência moral, como já demonstrei na primeira parte deste escrito.

Outro aspecto que podemos destacar é que pedirmos a bênção é sinal de respeito aos mais velhos e por isso os tememos. Que temos receio de decepcioná-los. Isso pode implicar num esforço contínuo por parte daquele que é abençoado. Ele se esforçará para que suas atitudes sejam coerentes. Logo, um estudante pode ficar preocupado em proporcionar bons resultados nos estudos, tendo em vista a aprovação por parte daquele que o abençoou.

Por isso estou convencido de que, independentemente do grau de instrução que alguém possa ter, pedir a bênção aos mais velhos é uma atitude louvável, que tende a melhorar nosso endereço existencial.

Aquilo que convencionei chamar de espiritualidade desfetichizada, pode ser fortalecida pelo carinho e afeto que poderemos ter pelos mais velhos. Considerar suas experiências de vida para não repetirmos os erros que porventura eles tenham cometido, me parece ser um gesto de sabedoria.

Nesse sentido, esse gesto de pedir a bênção é beber no próprio poço. É uma oportunidade de lembrarmos que temos uma história e que poderemos tomar consciência do por que estamos na história. Isso é possível para aqueles que conseguem ver isso como um gesto privilegiado de nos conectarmos com a substância primeira de onde somos originários.

Conseguirmos compreender que tudo está imbricado, que somos interdependentes e que esse gesto de pedir a bênção pode ser mais uma oportunidade de nos fortalecermos, é próprio daqueles que escolheram a humildade como fonte de inspiração de sua conduta.

2. Um pouco da minha história e da força da bênção em minha vida

Tudo o que lhe escrevi até aqui teve como fonte originária o que aconteceu comigo há poucos dias. Eu pude pedir a bênção ao meu único tio-avô com quem tenho forte ligação. Trata-se do meu tio Luiz. Ele tem 84 anos e vive no interior do estado da Bahia. Ajudou-me quando eu tinha dezesseis anos de idade. Foi ele um dos que teve misericórdia de mim. Eu ainda não sabia ler direito, apenas soletrava. Já havia reprovado quatro vezes. Estava na quinta série e trabalhava em uma fábrica de carrocerias em Medianeira, Paraná, perto de onde moro hoje, Cascavel. O reumatismo tinha voltado. Eu já havia desistindo de estudar. Ele chegou e disse a minha mãe: – “Não adianta, ele não vai conseguir trabalhar no pesado. Terá que trabalhar em escritório”. O que foi que ele fez? Pagou-me um curso de datilografia e eu voltei a estudar à tarde. Com a ajuda dos meus pais, e de mais uma professora de português, a qual não esqueço, nunca mais eu reprovei.

Quando nesta semana eu pude falar pelo telefone com ele, quando pedi a bênção a ele, me energizei de tal forma que encontrei elementos para lhe escrever essas coisas.

Portanto, esse simples gesto que está sendo esquecido por muitos poderia ser revitalizado como uma forma de frearmos o vazio ético que toma conta de boa parte de nossas crianças e jovens em nossos dias.

Como há outros elementos a serem considerados, penso que essa reflexão poderá ser complementada por você e por outros profissionais da educação que vivem dias difíceis frente ao processo ensino-aprendizagem.

Caso você queira fazer um comentário acerca do que escrevi, por bondade, escreva-me diretamente através do meu endereço eletrônico que é:ivo@itecne.com.br

[1]Ivo José Triches é escritor, palestrante e Diretor das Faculdades Itecne de Cascavel. Autor do blog www.itecne.edu.br/ivo também é formado em Filosofia. Fez três Especializações e fez o Mestrado.

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Conheça a verdade e ela te libertará, mas libertará do quê?

Por Ivo José Triches[1]

Ao responder essa questão, sem floreio, a minha resposta é: nos libertará da ignorância, do medo e da dominação dos outros. É evidente que há outras razões a serem abordadas. No entanto, essas são as que considero nucleares quando o assunto trata da importância do conhecimento da verdade.

O que você lerá a seguir é a reflexão sobre cada um dos itens desta resposta. Sendo que o objetivo central deste escrito é facultar aos leitores do mesmo, as condições de possibilidades para termos uma vida sem tantas dores existenciais.

1. Por que o conhecimento da verdade nos liberta da ignorância?

No artigo escrito por mim, cujo título é: “As razões que justificam ser a verdade um bem”, procurei detalhar a etimologia do conceito verdade. Por isso, farei um atalho e irei direto ao foco.

Gnose é uma palavra de origem latina. Traduz a ideia de conhecimento. Contudo, de modo geral é usada no sentido do conhecimento do Eu na relação com o Transcendente. A letra “I” no latim – semelhante ao que ocorre com a letra    “A” no grego clássico -, é utilizada em muitas palavras como prefixo de negação. Razão pela qual a palavra ignorância pode ser compreendida como o “não conhecimento”, ou seja, ignorante é aquele que não conhece.

Você concorda com a expressão: “todos nós somos ignorante em assuntos diferentes”? Lembro-me que li isso em 1987 e nunca mais deixei de pensar que isso é mesmo algo significativo. É por isso que termos a humildade perto de nós, faz toda a diferença em nosso dia-a-dia. O arrogante, por pensar que sabe tudo, não aceita o diferente. Acretida que já está com o “copo cheio”. Pensa que ninguém pode lhe ensinar algo. Por ser assim, acaba sofrendo, entre outras coisas, com o isolamento social. Isso porque as pessoas, ao perceberem que suas ideias nunca são consideradas, acabam por se afastar dessa pessoa.

A filosofia é movimento. É a procura amorosa da verdade, nunca sua posse definitiva. Se estivermos abertos à possibilidade do novo, sofreremos menos.

No livro Convite à Filosofia da Marilena Chauí, de forma brilhante, ela responde à seguinte questão: por que o homem busca o conhecimento? Diz-nos que a principal razão de ser do conhecimento é o desejo humano de resolver seus problemas. Para ilustrar melhor essa questão lançarei mão de um recurso didático que gosto muito, que consiste em apresentar as ideias em  forma de tópicos. São eles:

-  Karl Marx (1818-1883) teve cinco filhas e um filho. Quando seu guri tinha 14 anos foi acometido de forte infecção na garganta. Marx e seu grande amigo  Engels (1820-1895) estudaram mais do que os médicos da Inglaterra da época para encontrarem uma solução para o filho. Resultado: seu filho morreu. Isso lhe causou dores existenciais profundas. Claro que para sua esposa – Geni  – também. Se fosse hoje, talvez, uma amoxilina poderia salvar seu filho. No século XIX não se conhecia esse remédio;

- No campo da economia isso não é diferente. Aquele que conhece bem o funcionamento do mercado e atua com vendas, por exemplo, certamente sofrerá menos à medida que fará uma leitura melhor da conjuntura econômica, etc. Já escrevi em outro momento que eu e meus sócios, por não conhecermos muito do sistema tributário, acabamos pagando uma fortuna de impostos sem necessidade. Somente depois de fazermos um estudo exaustivo do Simples Nacional, percebemos que um bom planejamento tributário seria a solução para podermos continuar prestando um bom serviço à sociedade;

- Outro exemplo que aconteceu recentemente comigo: hoje eu moro em Cascavel, no oeste do Estado do Paraná. Estou me organizando para voltar a morar em Curitiba. Encontrei na internet o anúncio da venda de um terreno. Que nele a prefeitura autoriza construir prédios com até quatro pavimentos. O principal diferencial do anunciante foi destacar isso. Ao ligar para três amigos que moram na Capital, se valeria a pena investir nesse local para lá morar, um disse-me: “- Ivo, se você pretende fazer parceria com alguma construtora para depois do imóvel pronto você ficar com um apartamento é possível, mas eles só aceitam quando o terreno tem 17 metros de frente”. Ora, o imóvel anunciado só tem 10,4 metros. Portanto, graças a essa informação evitarei uma frustração amanhã. Uma simples demonstração do quanto o conhecimento da verdade é importante;

- No que tange ao campo do direito isso fica ainda mais evidente. Quantos que sofrem por não conhecerem as leis que regulamentam a vida que o cerca? Se existe algo que me entristece nas relações humanas é quando alguém começa a me dizer: – “Isso você não pode fazer porque não é legal”! Quando você pergunta de que lei ela está falando, ela diz: “Eu não sei o número da lei, mas posso lhe garantir que não pode”! Barbaridade! Não aceite essa imposição. Estou agindo com tolerância zero em face disso. Chega de especulação!

Não aceite as coisas com base no ouvir dizer. Hoje, com o recurso dos portais de busca, basta você digitar a lei tal, que já aparece o número, de onde emanou, etc. Dessa forma, ao buscar as informações na fonte, nos livraremos dos atravessadores que, muitas vezes, aumentam o floreio para nos dominar. Convido-lhe a seguir essa leitura. Vou lhe apresentar meu entendimento acerca da questão do medo.

2. Por que o conhecimento da verdade nos liberta do medo?

Se você já leu outros artigos meus, deve ter percebido que em quase todos eu  cito Espinosa (1632-1677). No tocante a essa temática, não há como não cita-lo. Até porque pelo pouco que conheço da Filosofia, ele foi um dos filósofos que abordou essa questão do medo com muita propriedade. O que basicamente ele nos diz a esse respeito?

O homem teme a morte. Creio que você concorda com essa afirmação. Ninguém deseja conscientemente morrer. Nós nos esforçamos para prolongarmos nossa existência. Assim, vivemos uma dicotomia. Diante nós reinam duas forças: o medo e a esperança. Medo que algo possa vir a me acontecer e esperança de que tal mal não me aconteça.

A título de exemplificação, vou citar algumas situações que vivemos hoje. Existem muitos consultores que primeiro vendem dificuldades para depois venderem facilidades. Eu mesmo conheço vários. Primeiro, começam fetichizando seus títulos acadêmicos. Depois, põem medo nas pessoas acerca de uma determinada situação. Por fim, dizem: – “eu tenho a chave de como resolver isso, só que meu preço é tanto”. Eu vivenciei uma situação análoga.

Por uma questão ética vou lhe contar o “milagre, mas não o santo”. Numa certa feita um ator social X dizia: – “olha, isso não dá para fazer, o MEC não deixa”! “A lei, X proíbe isso”. E assim por diante. Depois de colocar medo no seu superior que não conhecia as leis educacionais, ele começou barganhar um valor exorbitante para resolver tais problemas que ocorriam em sua instituição.

Devemos muito aos pensadores iluministas do século XVIII. O que se convencionou chamar de primavera árabe, nada mais é do que uma revolução francesa tardia. Os movimentos sociais no mundo árabe buscam entre outras coisas, libertarem-se do medo imposto pelos líderes políticos e religiosos ao longo de séculos. O desejo de liberdade, igualdade e fraternidade ecoam até hoje no coração de muitos seres humanos. Dos que não aceitam ser subjugados por aqueles que dizem ter o “sangue azul”.

3. Por que a verdade nos liberta da dominação?

Em latim dominus significa senhor. Por isso, o conceito dominação pode ser compreendido como “ação do senhor”. Em outras palavras: aquele que exerce um poder sobre outrem. Daí que vem a palavra domingo, ou seja, dia do  senhor.

Talvez você concorde comigo que é da condição humana a necessidade de termos líderes. E é incrível como isso é tão natural. Quem trabalha como educador ou educadora, pode comprovar o que escrevo. Basta às crianças irem crescendo que logo começam a se destacar alguns com espírito de liderança.

Ocorre que existem alguns líderes que desejam garantir privilégios a qualquer custo. Para tanto, criam uma ideologia. E o que isso significa? Constroem um corpo de ideias muito bem fundamentado, capaz de dar sustentação aos seus interesses. A partir disso começam a persuadir os outros através de uma comunicação perlocucionária, como bem nos mostra Habermas (1929…).

Recentemente eu ouvi um líder religioso falando pela TV. Para persuadir os outros dizia: – “isso está na Bíblia, portanto é legítimo que eu aja assim”! “Por que se pode usar o cartão de crédito em diversos locais e nós não podemos usar em nossa igreja”?, etc. Ao desconstruirmos o seu discurso poderemos chegar ao êidos do fenômeno, qual seja, de que sua verdadeira intenção é ver seu patrimônio aumentando, independentemente da situação em que os outros se encontram.

Portanto, o conhecimento da verdade é fundamental para todos aqueles que desejam construir uma vida pautada pela razão. Para aqueles que desejam ter uma espiritualidade desfetichizada, livre do medo e da imposição da pseudo verdade dos outros.

Se esta leitura contribuiu para o fortalecimento do seu conatus, meu objetivo foi alcançado. Sobre esse conceito em negrito, você encontrará mais informações no meu artigo “Como superar uma grande paixão”, disponível no meu blog: www.itecne.edu.br/ivo Notoriamente, desejo que leia meus textos… rs!

Caso você queira fazer um comentário acerca do que escrevi, por bondade, escreva-me diretamente através do meu endereço eletrônico que é:ivo@itecne.com.br

[1] Ivo José Triches é escritor, palestrante, Diretor das Faculdades Itecne de Cascavel. Autor do blog www.itecne.edu.br/ivo também é formado em Filosofia. Fez três Especializações e fez o Mestrado.

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Como superar uma grande paixão!

Por Ivo José Triches[1]

Refletir sobre esse assunto é para mim um dos mais apaixonantes. Espero que ao terminar de lê-lo você possa dizer que valeu a pena ter parado suas atividades para dedicar-se a essa leitura.

Claramente há uma intencionalidade principal neste escrito. Qual? Contribuir para melhorar o endereço existencial daqueles que necessitam dessa reflexão. Será que conseguirei atingir tal intento? Veritas filia temporis(a verdade é filha do tempo). Boa leitura!

  1. A base teórica deste artigo

Só eu sei o quanto eu não sei, mas do pouco que aprendi até hoje, não conheci nada tão significativo quanto a teoria de Espinosa (1632-1677) quando o assunto é a questão das paixões.

Se você já leu outros artigos meus, deve ter percebido que Espinosa já foi citado várias vezes. Ocorre que de fato esse pensador passou a influenciar muito a minha forma de pensar desde o dia que comecei a aprender aspectos do seu pensamento. Estou lendo suas obras. Li vários comentadores, principalmente a Marilena Chauí e Cláudio Ulpiano.

Na graduação em Filosofia praticamente não me lembro de ter visto algo sobre ele. Contudo, quando fui professor da Rede Estadual de Educação do Paraná tive o privilégio de ter conhecido um professor que marcou a minha vida. Foram dois encontros apenas. Foi Cláudio Ulpiano (UFF). Já falecido justamente por uma paixão da tristeza que o acompanhou por muitos anos, qual seja, o cigarro.

Evidentemente que abordarei aqui a questão da paixão amorosa. Entretanto, antes de chegar a ela torna-se necessário lhe apresentar alguns conceitos que são fundamentais na teoria espinosiana para que você de fato entenda essa temática, bem como possam orientar suas ações, se assim lhe convier. São eles:

- Conatus: força intrínseca a todos os seres que nos chamam para a vida. Em outras palavras: é a luta pela existência. Ninguém deseja conscientemente morrer. Por que nós somos mais assustados que os jacarés? Porque nossa visão é mais limitada. Temos o controle de no máximo 180º. Ao passo que o jacaré tem os olhos em cima da cabeça. Enxerga mais. Ele só reage se o seu conatus estiver ameaçado.

Outro exemplo: quando eu era pequeno, lembro-me que havia um homem muito mau lá na Linha Famoso, município de Descanso, Estado de Santa Catarina. Foi lá que passei os primeiros anos de minha infância, razão pela qual amo tanto o sítio.  Esse homem matava os outros com facilidade. Vivia envolvido em confusão. Quando ele ia à bodega tomar uma pinga, nunca ficava de costas para entrada do bar. Por quê? Porque tinha medo de ser ceifado. Ele matava o conatus dos outros e por isso temia que o seu fosse abatido.

Por isso que a expressão: “encostar a cabeça no travesseiro e dormir em paz” faz todo o sentido. Portanto, para Espinosa a regra é clara, ou seja, se nas minhas ações eu buscar fortalecer o meu conatus e também o conatus daqueles que me rodeiam, certamente minha capacidade de existir aumentará. No entanto a recíproca é verdadeira.

A partir desse pressuposto ele vai produzir o seu conceito de Ética que não é o foco aqui. Em outro momento escreverei sobre esse tema.

Hoje em dia fazemos o uso do conceito depressão com facilidade. Isso quando queremos nos referir a alguém que está triste, que não vê perspectiva em face do futuro, etc. Pois bem! Para Espinosa, essa pessoa está com o seu conatus enfraquecido. E por quê? Certamente porque está envolta em muitas paixões da tristeza. As pessoas – não todas – com as quais ela convive, podem estar com muitas paixões da tristeza também. É possível que estejam puxando essa pessoa para baixo, com “cabos de aço”, como bem sinaliza Lúcio Packter sistematizador da Filosofia Clínica. Desse modo é necessário entendermos o que são paixões e como elas se classificam, segundo Espinosa.

- O que são as paixões para Espinosa? São as vibrações, afecções que o nosso conatus sente. Elas são exteriores ao sujeito. A etimologia deste conceito é grega. Pathos = sofrer, deixar-se levar por… Daí deriva em nossa língua portuguesa a palavra patologia. De forma breve: a ciência que estuda as doenças. Associado a isso é relevante destacar que Platão considerava a paixão amorosa uma enfermidade do coração. Da mesma forma que nosso corpo sofre quando estamos com gripe, nosso coração padece quando estamos apaixonados. Uma visão negativa do conceito, evidentemente. Já para Espinosa esse conceito passa a ter uma conotação diferente.

Há sim uma ligação da etimologia dessa palavra com o significado atribuído por Espinosa, mas é apenas parcial. Isso porque para ele as paixões se classificam em dois grupos. As da tristeza e as da alegria.

O que são as paixões da Tristeza? São afecções, vibrações que o nosso conatus sente. Isso já foi dito acima você talvez esteja pensando. Uma vez existindo esse tipo de paixão em nós, nosso conatus ficará enfraquecido. Ele também definiu como paixões fracas. E por quê? Porque ao permitirmos que elas existam em nós, nossa capacidade de existir ficará diminuída.

Para mim isso está claro. Um ator social que se deixa levar pelas forças que vem de fora, que vive a partir das paixões da tristeza, vive menos até cronologicamente.

Como o texto ficaria excessivamente longo, não abordarei cada paixão como tenho o hábito de fazer em minhas aulas. Citarei apenas as principais. São exemplos de paixões da tristeza: o vício, a inveja, o ciúme, a mágoa, o ódio, etc.

Ao fazermos uma ligação com os seus três conceitos de conhecimento, poderemos afirmar, com segurança, que uma pessoa tomada por paixões da tristeza está apenas no primeiro. No nível da consciência (o segundo é o da razão e o terceiro o da ciência intuitiva). Ele compreende que sofre, mas escolhe não romper com essa lógica. Isso porque pensa no hedonismo que suas paixões lhe proporcionam. Não se dá conta que tem um caminho fácil no começo e espinhoso depois.

Para ilustrar isso vou exemplificar com a situação de muitos estudantes hoje. Há pessoas que fazem curso à distância do conhecimento. Preferem aqueles que são rápidos. Cujo diploma possa ser obtido sem grande esforço. Alguns desses cursos são ofertados na modalidade presencial, mas não há comprometimento por parte do estudante e, muitas vezes, das instituições também.

Assim o caminho que foi mais fácil no começo, tornar-se-á o mais difícil depois. Ele passou pelo curso, mas o curso não passou por ele. Não ocorreu a transcendência. Na hora que for chamado à responsabilidade terágrande dificuldade. Eu já presenciei isso com vários professores e professoras ao longo desses anos como Educador.

Isso implica em dizer que uma pessoa assim, deixa-se levar pelas forças que vem de fora. É um corpo marcado por outros corpos, como bem salientou Cláudio Ulpiano. Outro exemplo: o fiel que age conforme as orientações do seu líder religioso. Passemos agora a conhecer outra possibilidade de ser.

O que são as paixões da alegria? São as afecções ou vibrações que nosso conatus está afeto. Se em ti coabitarem mais paixões da alegria, você viverá mais até cronologicamente. Terá menos dores existenciais. Espinosa dizia que o homem forte é aquele que vive a partir das paixões da alegria. Seria o homem ético para ele. O homem da moral é aquele que vive a partir das paixões da tristeza.

Eu defino a felicidade como um estado de contentamento da alma. Ela é possível? Sim. No entanto dependerá das escolhas que fizermos. Não dá para desejar a felicidade permitindo que as paixões da tristeza tomem conta da minha existência. São exemplos de paixões da alegria: a virtude, a admiração, a amizade, a misericórdia, a bondade, o perdão, etc.

O que é a Liberdade para Espinosa? Consiste na capacidade que um ser tem de agir sem restrições. Partindo desse pressuposto podemos dizer que Deus é livre. E o homem? Pois então! Para ele o homem só consegue conquistar a sua liberdade se chegar ao terceiro conceito de conhecimento, qual seja, o da consciência intuitiva.

Liberdade e pensamento são dois conceitos importantíssimos na teoria espinosiana. O homem, por ser dotado de razão, é capaz de chegar ao conhecimento das coisas. A partir daí, se assim desejar, poderá ser o fundamento do seu próprio fundamento moral. Poderá inventar-se. Ele tem seu poder ampliado, e começa mudar o que vem de fora. Sendo, portanto, portador de liberdade.

A partir dos conceitos apresentados acima, chegamos, finalmente, próximo da compreensão de como poderemos superar uma grande paixão. Vamos adiante?

2. A superação de uma grande paixão segundo Espinosa

De pronto enfatizo que eu também partilho dessa resposta apresentada por ele. Por isso no título não destaquei Espinosa.

Na sua obra chamada ÉTICA, maisprecisamentena Quarta Parte na VII proposição ele afirma: “Uma paixão não pode ser reprimida nem suprimida senão por outra paixão contrária e mais forte do que a paixão a suprimir”.

Ao partir dessa afirmação vou – de forma breve – lhe apresentar como  as paixões amorosas eram vistas no séc. XVII. Na verdade, até hoje o sexo é visto, por muitos, como coisa suja, causa dos nossos pecados, etc.

Na época de Espinosa isso não era diferente. Quando alguém sofria os efeitos da paixão deveria sufoca-lá através da ascese, ou seja, do exercicio espiritual. Ao se autoflagelar[2], tomar banho frio, não tocar no corpo, acreditava-se que o homem chegaria mais próximo de Deus. O discurso era (e é, para muitos): o “importante é salvar a minha alma”. Para isso o corpo necessita padecer. Uma visão maniqueísta que Espinosa refutacom veemência. Ele nos diz que o fato de existir em mim o desejo por alguém, isso não se constitui em um mal nem em um bem. Dependerá de como eu agirei em face dessa paixão.

Se uma paixão ao realizar-se aumentar em mim a capacidade de existir isso se constituirá em um bem. Porém, se os resultados decorrentes da busca pela realização da referida paixão enfraquecerem o meu conatus, evidentemente, que a mesma será um mal. Nas palavras de Espinosa: “Uma paixão, na medida em que se refere à alma, é uma ideia pela qual a alma afirma uma força de existir de seu corpo, maior ou menor que antes. Portanto, quando a alma é dominada por alguma paixão, o corpo, ao mesmo tempo, é afetado por uma afecção que cresce, ou aumenta, ou diminui a sua potência de agir. Demais essa
afecção do corpo recebe de sua causa a força de preservar no seu ser; ela não pode, pois, ser reprimida, nem suprimida, senão por uma causa corporal que afete o corpo contrariamente a ela, mais forte, e então, a alma será afetada pela ideia de uma paixão mais forte e contrária à primeira, isto é, a alma experimentará uma paixão mais forte, e contrária à primeira, que excluirá ou suprimirá a existência da primeira, e por isso, uma paixão não pode ser suprimida nem reprimida, a não ser que o seja por uma paixão contrária e mais
forte”.  Ele escreve isso ainda dentro da proposição VII.

Imaginemos agora que uma pessoa se apaixone perdidamente por outra, mas não há a mínima possibilidade que tal paixão seja correspondida. Há basicamente duas possibilidades:

A primeira é que ela fique sofrendo e insistindo na tentativa de obter êxito. Se ela não conseguir tal intento as dores existenciais serão enormes. Ela sofrerá e fará o outro sofrer à medida que ficará perturbando a alma dessa pessoa. Isso poderá lhe causar danos irreparáveis tanto a ela que está afeta a essa paixão e depois nos outros envolvidos no processo;

A segunda possibilidade é que ela decida deixar que a pessoa amada siga seu caminho. Ao fazer isso, poderá canalizar todas as suas forças em outra atividade que seja socialmente aceita. A partir disso lentamente o tempo se encarregará de apagar as dores da paixão não correspondida. Ela perceberá que sua potência de agir será aumentada. Seu conatus voltará a estar fortalecido e novos dias virão.

Creio que tenha sido dessa afirmação acima de Espinosa que Freud construiu o seu conceito de sublimação. A Marilena Chauí afirmou no livro Espinosa, uma Filosofia da Liberdade que Marx e Freud produziram parte de suas ideias à luz do pensamento de Espinosa.

3. Considerações finais

O lado bom de conhecermos a temática das paixões sob a perspectiva espinosiana é que as mesmas são tratadas sem o aspecto moralizante da grande maioria das religiões. Ao tentarmos compreender esse fenômeno sob o olhar circunscrito à razão, ficamos livres da culpa e da especulação que tanto mal fazem à alma humana.

Partilho daqueles que veem em Espinosa um pensador “embriagado de Deus”. Se partirmos do pressuposto de que Deus é vida e de que as paixões da alegria apresentadas por Espinosa são fontes da nossa longevidade, podemos inferir que há uma aproximação entre o que ele escreveu e o verdadeiro espírito de Jesus Cristo. Afinal uma das partes mais lindas do evangelho é a afirmação: “Eu
vim para que todos tenham vida…”.

Evidentemente que conseguirmos substituir o vício pela virtude; a inveja pela admiração; o ciúme pela bondade e ou tolerância; a mágoa pelo perdão; a arrogância pela humildade, não é uma tarefa tão simples.

Contudo isso é possível. No último parágrafo de sua obra ÉTICA, Espinosa faz uma analogia com a joia. Diz-nos que da mesma forma que não é tão simples encontrarmos uma joia, mas ao encontra-lá não desejamos perdê-la, também não é fácil conseguirmos substituir as paixões da tristeza pelas da alegria. Entretanto à medida que conseguimos tal feito, não desejamos que esse novo momento acabe, porque o bem que elas nos proporcionam é incomensurável.

Espero que esse escrito tenha contribuído com sua formação e que suas escolhas sejam sempre as melhores.

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[1] Ivo José Triches é escritor, palestrante e Diretor das Faculdades Itecne de Cascavel. Autor do blog www.itecne.edu.br/ivo também é formado em Filosofia. Fez três Especializações e fez o Mestrado.

[2] Sugiro que assista ao filme O Nome da Rosa. É um retrato da Baixa Idade Média e que perdura até nossos dias. No movimento Opus Dei e em muitas congregações religiosas, isso é uma realidade até hoje.  Ainda: para os carismáticos na Igreja católica e para muitas religiões evangélicas, o sexo é visto até hoje como algo negativo, pecaminoso, etc.

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